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FIM DO SÉCULO XX. FIM DE UM CICLO – Crônica de Rinaldo Barros

amanhecer
A história é caprichosa. Fidel desencarnou no mesmo dia em que o iate Granma saiu do México com um grupo de 81 guerrilheiros rumo a Cuba, para – em jornada épica, quase suicida – iniciar a Revolução cubana, em 25 de novembro de 1956. Amado e odiado na sua própria família por filhos e parentes, Fidel é uma das figuras políticas mais controversas do último século.
Um homem que transformou um país com pouca expressão em um dos ícones de resistência e resiliência contra um império. Fidel foi (ainda o é?) o grande ícone da “esquerda” da América Latina. Para alguns, um santo e lutador, um assassino sanguinário para outros. Por mais contraditório e antagonista que possa parecer, Fidel foi, sobretudo, um sobrevivente, como muitos de nós, latino-americanos, explorados e sobreviventes em nossas lutas diárias desde o nascimento. Sua morte fecha um ciclo e encerra o século XX.
Fidel, antes de assumir o poder, contava com apoio de alguns cubanos influentes que financiaram o treinamento dos guerrilheiros e a divulgação de panfletos por toda a ilha. Fidel chegou a Havana, no Réveillon de 1958 para 1959 assumindo o controle do governo, após a fuga de Fulgêncio Batista (ditador de 1952 a 1958).
A Revolução Cubana, de início, não foi Socialista. Foi, sim, Nacionalista! Fidel não queria perder o apoio dos EUA. É tanto, que a sua primeira viagem internacional (à época) foi para pedir apoio aos EUA.
Entretanto, como o governo Fidel nacionalizou muitas empresas e fez uma reforma agrária radical, principalmente às custas de latifúndios pertencentes também à americanos, o governo estadunidense não poderia compactuar com perdas para seus próprios cidadãos.
Cuba sempre dependeu da ajuda externa, pois com território limitado e poucos recursos naturais, não havia como sustentar a economia numa revolução nacionalista.
Fidel, então, na época da Guerra Fria, foi quase que “jogado” nos braços dos Russos, que interessados pela proximidade territorial dos EUA (menos de 90 Km da costa dos EUA), influenciaram Fidel a proclamar Cuba um país com regime Socialista.
Cuba, sob o governo de Fidel, conseguiu significativa inclusão social, com foco na Educação e Saúde. Todavia, nunca conseguiu evoluir para um regime político fundado na Liberdade e na Democracia.
Democracia não é fácil, há que se praticar a tolerância, e aceitar a alternância no poder como pilar do Estado Democrático de Direito. Fidel não conseguiu dar este passo.
Segundo Maja Liebing da Anistia Internacional (https://anistia.org.br/), Fidel e a Revolução Cubana são responsáveis pela morte de mais de 100 mil pessoas, o que o tornaria um dos ditadores mais violentos e temidos da América Latina. Fidel teria mandado prender e matar milhares de pessoas apenas por exercer pacíficas atividades políticas (afugentando da Ilha milhares de cubanos). Calcula-se que cerca de dois milhões de cubanos exilados vivem nos Estados Unidos atualmente.
Um dos mais duros golpes contra Fidel foi a queda do bloco soviético, a partir do final da década de 1980. Com a diminuição da ajuda soviética (em dinheiro, petróleo e na compra de açúcar e outros produtos cubanos), Cuba se viu em uma crise econômica sem precedentes.
Com a economia cada vez mais debilitada, considerando que a geografia agora lhe era favorável, Fidel resolveu “abrir” a economia para o turismo. Uma nova possibilidade de criação de hotéis e resorts por empresas estrangeiras foi aberta.
Cuba também passou a exportar “mão de obra”, desde militares, que combateram nas revoluções em Angola e Etiópia, passando por professores, enviados também para diversos locais do mundo, até médicos, exportados para países como Venezuela, Bolívia, Equador e até mesmo o Brasil, para sustentar o regime cubano.
Fidel, autoproclamado agnóstico, também teve importantes encontros com os Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco, sempre mediando conflitos entre outros países ou grupos latino-americanos, mostrando uma influência política rara.
No ocaso de sua vida, já fora do poder oficial, Fidel orientou para o fim do antagonismo Cuba x EUA, com a aproximação entre Raul Castro e Barack Obama. O acordo foi anunciado em 17 de dezembro de 2014, e os laços diplomáticos foram restabelecidos; encerrando o último capítulo da Guerra Fria no hemisfério Ocidental, fechando as cortinas do século XX. É o fim de um ciclo.
Estamos assistindo aos primeiros clarões da alvorada de uma nova era política.
Ninguém pode estar ao mesmo tempo no presente e no passado. O que passou não voltará: feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é.
Às vezes é necessário “morrer”, fechar ciclos, para que se renasça. Vida é renovação!

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FALTA MUITO CHÃO – Crônica de Rinaldo Barros

ESPERANÇA
“Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela Natureza, nos Direitos Humanos universais, na Justiça econômica e numa Cultura da Paz”. (Carta da Terra, documento aprovado pela ONU, em 2002)

Você já parou para pensar no que significa a palavra “progresso”? E “prosperidade”?
Pense mais um pouco, pois as palavras têm força: desenvolvimento, avanço, melhoria, evolução, expansão, ampliação, riqueza, fartura, abundância, qualidade de vida, civilização, trabalho, saúde, educação, informatização, cidades limpas, pontes, estradas, indústrias e muitas outras coisas, que ainda estão por vir e que não conseguimos ainda sequer imaginar.
Agora pense um pouquinho mais: será que tudo isso de bom não tem um preço?
Será que para ter toda essa facilidade de vida nós não pagaremos nada?
Relembro que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) vem sendo considerado melhor termômetro para medir a qualidade de vida das populações do que o comportamento do PIB. Nesta semana, saíram os resultados referentes aos municípios brasileiros em 2014, mostrando que as condições de renda, educação e longevidade no país perderam fôlego durante a gestão de Dilma Rousseff.
O índice que mede a desigualdade no país praticamente não se alterou nos anos Dilma. Passou de 0,53 para 0,52 – quanto mais próximo de zero menos desigual é o país.
Pesquisadores que se debruçaram sobre os resultados divulgados nesta semana suspeitam que os próximos levantamentos do Pnud registrarão piora nas três dimensões de indicadores.
Diante do que vem acontecendo no país nos últimos dois anos, esta não é mera possibilidade, mas sim sólida certeza.
Já é sabido que a renda per capita dos brasileiros caiu quase 10% desde o início da recessão, em 2014, superando até as perdas da chamada “década perdida” – mal sabíamos que, com o PT, rifaríamos não apenas dez, mas pelo menos 13 anos…
Além da falta de crescimento, a inflação colabora para o empobrecimento geral da população e a deterioração das condições de vida no país.
O caro leitor sabe que desenvolver com sustentabilidade é conquistar:
1) a satisfação das necessidades básicas da população (habitação, alimentação, segurança, saúde, educação e lazer);
2) a solidariedade para com as gerações futuras, de modo que elas usufruam de igualdade de oportunidades, que tenham chance de viver melhor no médio e longo prazo;
3) a preservação da identidade histórico-cultural de cada povo;
4) a participação democrática da população de cada comunidade envolvida e;
5) redução da poluição e preservação da diversidade dos recursos naturais: energia limpa, água limpa, oxigênio, fauna e flora.
Para tanto, o olhar da Ciência para essa questão deve ser político (com “P” maiúsculo), e exige uma abordagem teórica informada pela visão pragmática, considerando o Ser Humano como centro da vida no planeta.
O patropi vem avançando, e não é de hoje. Mas fica evidente que as políticas recentes se mostraram limitadas em dar melhores condições de vida à nossa população.
Falta muita educação, a saúde ainda é bastante precária e a desigualdade, aviltante.
E – como desafio maior – falta extirpar a corrupção em todos os níveis de governo (superando o patrimonialismo), e no seio da sociedade civil; substituindo a “Lei do Gerson” (levar vantagem em tudo) pela solidariedade e construção da cidadania.
Resta muito chão adiante até um dia virarmos uma nação realmente desenvolvida.

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ENTENDENDO TRUMP – Crônica de Rinaldo Barros

trump
O que explica a eleição de Donald Trump não é a política. É a economia.
Considerando os 120 milhões de eleitores que compareceram às urnas nas eleições presidenciais dos EUA, Donald Trump foi eleito, majoritariamente, por homens brancos da classe média baixa, maiores de 40 anos, com educação básica ou secundária, moradores em pequenas cidades, protestantes, com renda superior a 50 mil dólares anuais, mas também por grande parte dos nativos desempregados.
Esse segmento majoritário do eleitorado de Tio Sam não age por ideologia, mas decide seu destino a partir do bolso. O apelo de Trump foi pela reconstrução da grande nação americana, com geração de muitos empregos.
Trump assumirá no dia 20 de janeiro, quando o atual presidente, Barack Obama, se despede de seu segundo mandato. O Partido Republicano, de Trump, também assegurou maioria no Senado e na Câmara, abrindo caminho para reformas profundas.
Todavia, a questão é bem mais complexa.
Considerando o poder real, o establishment, Trump foi apoiado a partir do discurso de recuperar e modernizar o poderio militar americano – representa os interesses poderosos das empresas direta e indiretamente ligadas ao “complexo industrial militar” (produtoras de armamentos, munições, bombas, mísseis, minas, navios, porta-aviões, submarinos, aviões de caça, helicópteros, tanques, veículos militares, fardamentos, alimentos processados, medicamentos, entre outros), e empresas produtoras e distribuidoras de carvão, gás e petróleo.
Trump deve frear a luta contra as mudanças climáticas, notadamente a cooperação internacional com potencial efeito dominó sobre as economias emergentes. Veremos uma postura de menos empenho estadunidense sobre o tema.
Trump deve rever compromissos assumidos por Obama em relação ao consumo de combustíveis fósseis, tomando como base suas declarações de descrédito em relação às causas do aquecimento global.
Ou seja, o mundo agora deve andar sem os Estados Unidos na estrada para a diminuição dos riscos climáticos e do crescimento da inovação das energias limpas (eólica e solar).
Trump se referiu, ao longo da campanha, à globalização como um fenômeno nocivo para a economia americana. Ele apelou para a classe média trabalhadora – sobretudo a desempregada – prometendo trazer de volta aos EUA os empregos que foram criados no exterior, no processo de internacionalização das empresas americanas.
Esse apelo à “desglobalização” não é exclusividade da campanha republicana. Também no Reino Unido, o discurso protecionista e nacionalista fez triunfar em plebiscito a proposta de retirar o país da União Europeia, num processo apelidado de Brexit, em junho deste ano.
Forças nacionalistas capitalizaram o descontentamento provocado pela fraca recuperação da crise econômica global. Até por aqui, no patropi, petistas culparam o comércio internacional e os estrangeiros pelo fracasso dos seus governos…
Por falar nisso, uma certeza sobre o governo Trump é que haverá um aumento significativo do protecionismo na economia dos EUA, devendo ficar muito mais difícil vender nossos produtos por lá.
Mais importante que a posição contrária de Trump à globalização, contudo, é o componente de incerteza, a imprevisibilidade do novo Presidente.
Não se sabe ao certo o que o candidato republicano realmente será capaz de implementar.
A imprevisibilidade faz com que os investidores tendam a concentrar seus investimentos em ativos de menor risco. Isso significa fuga de capitais de mercados mais arriscados, como o Brasil. Isso traz grandes consequências para a economia brasileira. Por um lado, o dólar mais caro beneficia a indústria e o setor exportador. O câmbio depreciado melhora a remuneração de quem exporta no Brasil. Por outro, prejudica quem importa e tem impactos negativos na inflação.
É um novo recomeço para todas as nações do planeta. E um risco a mais, aqui, em terras crioulas.

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EDUCAÇÃO RECONCILIANDO O BRASIL – Crônica de Rinaldo Barros

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Começo lembrando ecos do nosso passado, nosso pecado original: o Brasil, ao abolir a escravidão, em 1888, não garantiu aos negros o acesso a uma educação de qualidade. Esse registro histórico é importante para explicar o enorme déficit que se foi acumulando devido a essa omissão do poder público brasileiro. Em decorrência disso, a marca da desigualdade vem sendo passada de geração a geração. Relembro: 53% da população brasileira é composta por negros e descendentes.
Daí a grande responsabilidade que pesa sobre nossos ombros para mostrar que não serão em vão os esforços para adquirir cultura e conhecimento. Do jeito que está hoje a situação, no patropi, é muito difícil convencer um jovem de que ele será capaz de ganhar mais dinheiro se continuar numa escola do que se entrar no circuito das drogas. O pior é que as evidências cotidianas provam o contrário.
No caso do Brasil, há ainda o obstáculo do egoísmo secular e abissal das elites que se recusam a enfrentar esse quadro dramático e a fazer o que está ao seu alcance.
Paradoxalmente, todo mundo concorda que o grande desafio é transformar a Educação em alavanca do desenvolvimento. Nesta direção, os investimentos em tecnologia e, particularmente, as tecnologias de informação e comunicação (TICs), podem ser de grande ajuda nesse processo.
Está mais do que comprovada a contribuição positiva que as tecnologias de comunicação podem dar na ampliação do acesso à educação e na melhoria da qualidade de materiais de aprendizagem a custos significativamente menores que os envolvidos em outras modalidades mais tradicionais de ensino quando populações grandes e dispersas devem ser atendidas.
A UNESCO tem procurado apoiar todas as possíveis formas de estender educação de qualidade ao maior número de pessoas possível e, no caso do uso das TICs, chama a atenção para o fato de que o uso combinado de várias tecnologias é provavelmente a melhor forma de atender aos fins educacionais.
A base para uma adequada combinação de tecnologias na Educação é o reconhecimento de que se devem mobilizar todos os recursos tecnológicos disponíveis para fins educacionais; e que os livros podem ser enriquecidos por outros meios para compor os elementos centrais na construção do conhecimento.
A educação presencial é ainda dominante, mas as universidades brasileiras, públicas e privadas, já começaram a oferecer cursos à distância, particularmente para a capacitação de professores.
A Internet já é um meio adotado por algumas escolas e universidades e é preciso estimular novas experiências na aplicação de tecnologias ao ensino no Brasil, seja na sala de aula ou à distância, na educação formal ou nas várias modalidades de educação continuada, ao longo da vida.
Vibro quando imagino que é possível nos apropriar da Tecnologia da Informação e Comunicação para construir redes solidárias, que articulem experiências e práticas testadas historicamente, construindo para a nossa terra uma alternativa humanizadora, inclusiva, democrática e cidadã.
Sonho com a metrópole digital, falo de e-governo, o governo inteligente, onde o Prefeito da capital estará conectado permanentemente com seus auxiliares, outros prefeitos, outros níveis de governo e com o Terceiro Setor, em tempo real. Seria como nos redimir, reconciliando nossa sociedade com o seu futuro.
A Educação é o principal vetor capaz de alinhar o desenvolvimento econômico com o social – um dos grandes desafios brasileiros. Portanto, valorizar a oferta de uma educação de qualidade, e não de qualquer educação, é um passo decisivo para um país mais justo. Isso significa oferecer a todos uma educação básica que leve o aluno a aprender o que é esperado a cada ano escolar, que o possibilite a concluir o ensino médio na idade correta, aos 17 anos de idade; e que o capacite a dar prosseguimento aos estudos, no ensino superior ou na formação que escolher para se preparar para o mundo do trabalho.
A educação de boa qualidade é fundamental como elemento de libertação e de justiça social. O colapso do sistema educacional brasileiro é pior do que a pobreza da nossa população. Por isso, devemos dar à educação brasileira um clamor de urgência nacional, de total prioridade.
Atualmente, com um cenário de corrupção sistêmica, alta de juros, dólar e inflação nas alturas, desemprego assustador, famílias endividadas, insatisfação popular crescente, greves de diversas categorias profissionais, vácuo de liderança, ausência de governabilidade, e investidores ainda com medo do Brasil; a Educação de qualidade, a Reforma do Ensino Fundamental e Médio, que era um assunto que estava anos-luz da realidade política brasileira, agora, está na Ordem do Dia.
Este debate sobre o papel da Educação, mais do que nunca, é importante para o fortalecimento da Democracia e o caminho para a dinamização da Economia. Será a Educação reconciliando o Brasil.

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ACORDO DE PARIS: UM NOVO OLHAR SOBRE O MUNDO – Crônica de Rinaldo Barros

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Nesta conversa, esquecendo um pouco as impactantes decisões na esfera do combate à corrupção, falo da canetada mais importante do governo de Michel Temer. Quiçá, do século.
No último dia 12 de setembro, num documento oficial público, o presidente Michel Temer assinou a ratificação do Acordo de Paris, previamente aprovado, no ano passado, por 197 países que participaram da Conferência do Clima de Paris. Talvez nem o próprio presidente tenha plena consciência disso, mas, mais do que assinar um tratado internacional, o que ele fez foi mudar para sempre o rumo da economia brasileira. E para melhor. A partir do mês que vem, passam a valer como lei no patropi todas as provisões do Acordo de Paris.
A principal delas é o objetivo de longo prazo de limitar o aquecimento global a bem menos de 2 graus célsius em relação à era pré-industrial, fazendo esforços para que esse limite seja de 1,5 grau.
As implicações que esses dois números trazem são imensas. Eles significam cidades mais habitáveis, com menos poluição, menos engarrafamentos e menos enchentes ou secas drásticas. Significam uma agropecuária mais eficiente e lucrativa. E significam uma conta de luz mais barata.
É um mundo novo que se abre em possibilidade, mas que precisará ser conquistado com muito trabalho e algumas decisões estratégicas. Só sai do papel se o povo entender e cobrar um ajuste imediato da Política Nacional de Mudanças Climáticas.
A consequência mais imediata da entrada em vigor do Acordo será a obrigação de cumprimento de nossa meta, anunciada há quase um ano, de reduzir em 37% as emissões em 2025 e em 43% em 2030 em relação aos níveis de 2005.
Para isso, o Brasil terá no mínimo de fazer cumprir o Código Florestal para recuperar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas, além de recuperar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas.
Trata-se de um esforço político significativo, já que até agora a resistência dos aliados de Temer no Congresso tem provocado sucessivos adiamentos no “cumpra-se” da Lei Florestal. E o crédito rural, cada ano mais superlativo para atividades que degradam terras, não chega a 2% do total para atividades de baixa emissão de carbono.
As metas colocadas na mesa hoje nos levam a um aquecimento de 2,6 graus a 3,1 graus no fim do século. Cumprir o objetivo do Acordo de Paris implica um esforço de guerra, com o povo empurrando.
Para o Brasil, isso significará antes de tudo zerar todo o desmatamento, legal e ilegal. Não há justificativa econômica ou ética para continuar desmatando.
É preciso também ter coragem de mexer na matriz energética. Nos últimos oito anos, o país dos biocombustíveis fez uma aposta pesada no petróleo. Hoje, mais de 70% dos investimentos em energia no Brasil projetados para a próxima década estão travados em combustíveis fósseis.
Ocorre que o Acordo de Paris decretou o ocaso desses combustíveis, por uma razão aritmética: manter a temperatura global em níveis seguros requer deixar a maior parte do petróleo, do carvão e do gás natural no subsolo. O Brasil não pode e não deve vacilar.
A boa notícia é que nenhum país reúne tantas condições de acelerar a descarbonização quanto o Brasil. Podemos ter a agropecuária mais lucrativa e sustentável do planeta – de fato, e não apenas naquela propaganda que passa antes da novela das 9 – aproveitando o espaço imenso para ganhos de eficiência que existe.
Podemos desenvolver uma economia florestal que gere empregos de qualidade onde o país mais precisa, em seu interior. E temos muita oportunidade de ampliar nossa infraestrutura energética com renováveis – uma amostra disso foi o crescimento da indústria eólica no biênio da pior recessão de nossa história.
O governo Temer e seus sucessores, porém, precisarão trabalhar muito para isso. É preciso incorporar o fator clima a toda a nossa equação de desenvolvimento. É preciso enfrentar os setores mais atrasados da economia e seu lobby no Congresso. E é preciso olhar de verdade para a Ciência e Tecnologia.
No mundo pós-Paris, a única ponte sólida para o futuro é essa: desenvolvimento sustentável, e construção de uma sociedade civil consciente e participante, capaz de controlar o poder público.
Sim, é possível alterar a ordem dos acontecimentos. Para tanto, mais do que querer, teremos que fazer. Temos que ir além do voto e passar a participar – ativa, compromissada e diariamente – das questões de interesse público. A política brasileira só vai mudar com a energia de uma sociedade civil vibrante que não tenha medo de assumir seu destino democrático. É, sem dúvida, um novo olhar sobre o mundo.
Em verdade, a Democracia brasileira, antes de políticos, precisa de bons cidadãos, pois é a força dos homens e mulheres de bem o grande catalisador das transformações práticas que o Brasil tanto precisa.

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SECA ESPIRITUAL – Crônica de Rinaldo Barros

pobreza-espiritualEstava eu posto em sossego quando um amigo telefona, comentando sobre a confusão posta nestas eleições municipais; com 35 partidos políticos registrados. Sem dúvida, uma crise da Democracia brasileira.
Compartilho com o leitor minha opinião: acho toda crise uma benção, porque nos indica que temos que abandonar o cadáver de nossas desilusões e trocá-lo pela inquietante lufada de ar do imponderável.
Em verdade, preocupa-me bastante a crise generalizada da ausência (seca) de ideias e de projetos políticos.
Ensinou-nos o saudoso Arcebispo honorário de Natal, Dom Nivaldo Monte, que a verdadeira fome não é de alimentos físicos, mas grave mesmo é a fome espiritual. A seca espiritual.
Ou seja, a pior miséria não é a material, mas a de conhecimento, a do espírito.
É preciso atentar bem para o fato de que, no Rio Grande do Norte, como de resto em todo o país, existem muitos candidatos; mas impera a escassez de projetos de desenvolvimento para a nossa sociedade. Como se fossem candidatos de si mesmos. É o tal do fulanismo.
Nessa pobreza espiritual generalizada, ao eleitorado resta a alternativa de escolher entre nomes de pessoas, sem saber ao certo o que cada candidatura significa.
Perdoem-me a franqueza, mas há realmente pouco sinal de vida inteligente no planeta da política brasileira.
Quem são os candidatos, em termos de ideias, ideologias ou projetos?
Defendem quais bandeiras de luta? O que pensam sobre o Mercosul? Quais deveriam ser as prioridades do PPA do RN? E do Plano Diretor de Natal? O que pensam sobre a Lei de Inovação Tecnológica? E quanto à Lei do Bem? O que pensam sobre o uso da propriedade urbana? Qual o percentual de imóveis sem regularização fundiária? Como enfrentarão o caos no trânsito? Como tratar o gerenciamento da água? Como despoluir nossos rios? E a violência urbana? Já leram o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001)? O que fazer para evitar a evasão escolar? E a proposta de reforma do Ensino Médio? Qual a opinião do candidato (a)?
Que soluções propõem? Quais são os projetos que irão desenvolver, caso sejam eleitos?
Uma eleição para milhares de Prefeitos e Vereadores deveria representar um momento-chave para a manutenção do equilíbrio socioeconômico e para que, a contento e com clareza, via debate de ideias, pudéssemos participar do processo de escolha.
A maioria dos partidos sequer formula programas de governo e, se for publicado algum documento semelhante, a maioria do eleitorado, provavelmente, não tomará conhecimento; até porque não será dessa forma que as alianças serão seladas. São outros os instrumentos para costurá-las. Tudo depende da capacidade do candidato, na arte de se manter dentro do jogo.
Quem sabe compreender o que não é dito pelo que é dito, quem consegue questionar o “não poder” como sendo “não querer” e que dispõe de condições para (re) contextualizar situações acaba por romper inúmeras das “cascas” com as quais a realidade se reveste; também consegue desmontar a dissimulação e distinguir os amigos dos inimigos. Ou não. Pois a traição também é uma possibilidade.
A traição, a mentira, a inveja, a vaidade, a arrogância, o rancor e a trapaça são armas sempre presentes.
Pensando positivamente, relembro também do escritor peruano Mario Vargas Llosa, o qual nos ensina que:
“O futebol é o ideal de uma sociedade perfeita: poucas regras, claras, simples, que garantem a liberdade e a igualdade dentro do campo, com a garantia do espaço para a competência individual”.
Ao contrário, constata-se que nossa sociedade está longe de exibir a singela virtude futebolística referida por Llosa. Aqui no patropi, o fim da escravidão e do Império, e o surgimento da igualdade jurídica republicana e das relações do trabalho livre assalariado, ainda não superaram alguns vícios aristocráticos dos tempos coloniais.
Somos (ainda) uma República sem povo. A República e a cidadania estão num porvir incerto.
Tanto é assim que essa ausência de ideias atinge também a grande maioria dos financiadores de campanhas. Com honrosas exceções, o empresariado considera o envolvimento com o social como ação filantrópica. Grande parte desse importante segmento ainda não compreendeu que a empresa tem corresponsabilidade pelas questões sociais, econômicas e políticas.
Cada líder empresarial deveria exercer uma gestão ética, pensando no bem comum, não o imediato, que se associa com filantropia, mas no desenvolvimento sustentável do país.
E, como consequência, os financiadores deveriam exigir dos “seus candidatos” a apresentação de projetos viáveis, com os quais pretendem exercer o mandato. Apoiariam o político como uma aposta em ideias viáveis.
Se assim ocorresse, a grana ganharia até certa dignidade, seria um voto de confiança.
Resumo da ópera: todos têm o direito de se propor como alternativa para o eleitorado. Todavia, para legitimar-se, deveriam apresentar projetos concretos viáveis; como pretendem gerir os destinos de nossa gente.
E que, não fosse a seca espiritual, vencesse o melhor e o mais competente!
Como acontece dentro do campo de futebol.

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