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ESPERANÇAR – Crônica de Rinaldo Barros

ESPERANÇA“Esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…” (Paulo Freire)
Mestre Ivan Maciel ensina que “o mais importante na Olimpíada do Rio foi o fato de nos mostrarmos ao mundo com a nossa verdadeira face. Sem macaquear as excelências estrangeiras”.
Relembra que “nossos atletas brilharam, até mesmo perdendo, como aconteceu com as seleções femininas de vôlei e de futebol. As festas de abertura e de encerramento foram antes de qualquer outra coisa genuinamente brasileiras, inimitáveis, com um sabor único, de brasilidade. Mas foram, sim, criativas, de uma alegria e animação contagiantes, de uma beleza simples – poética em sua simplicidade. Sem frescura falsamente cultural, mas de bom gosto artístico. Afinal, a Olimpíada deu certo. Inclusive na parte mais temida: a segurança”.
Contrariando temores de zika, violência e infraestrutura precária, a Rio 2016 chegou ao fim elogiada internacionalmente. Além disso, caso tenhamos algum juízo, o patropi pode ser impulsionado num salto de qualidade em sua história. Alguns legados importantes podem fazer a diferença.
O “Transforma”, programa de Educação do Comitê Rio 2016, já beneficia 28 mil alunos da rede municipal de ensino do Rio. A iniciativa, que leva os valores Olímpicos e Paralímpicos para as escolas, pode ser adotada por instituições de todo o país. Na página do programa, os professores encontram dicas de atividades e material de apoio para baixar.
A cultura é a primeira anfitriã de um país. Por isso, o Celebra – programa de Cultura do Comitê Rio 2016 – promoveu intervenções artísticas que representam a diversidade cultural brasileira, em uma ocupação inédita de ruas, parques, praças e praias da cidade sede dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. Projetos de música, instalações, dança e arte popular despertaram na população o espírito esportivo.
Você sabia que as delegações estrangeiras passaram por um período chamado “aclimatação”?
Engana-se quem pensa que os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 vão beneficiar somente o Rio de Janeiro. São 160 locais de treinamento em 18 estados do Brasil. Isso é legado que ficará para todo o país.
O “Transforma” tem uma proposta excelente, mas o número de escolas atendidas ainda é pequeno na comparação com a quantidade de escolas existentes no Brasil.
O programa que os Jogos Rio 2016 propôs é realmente muito interessante, muito importante, que renova a concepção do esporte para a educação escolar, ele é inovador, mas entendo que ele começou um pouco tarde.
Deveria ter começado quatro anos atrás para que a população pudesse coletar os benefícios e pudesse colocar em prática o conhecimento esportivo e de cidadania, e que isso também tivesse uma continuidade.
Faltou vontade política no governo do PT para envolver as crianças do país inteiro no espírito olímpico. Equipamentos públicos, ginásios, piscinas e pistas, todas as cidades que sediam uma Olimpíada têm que ter. Nós precisamos pensar grande e ter um diferencial que é o lucro social. E esse lucro social está justamente na ponta, no investimento no aluno, na escola, na educação escolar de qualidade, que é tão relegada para terceiro plano.
O programa “Transforma” atua em parceria com as escolas e oferece material didático digital sobre os movimentos Olímpico e Paralímpico, sugestões de experimentação esportiva e cursos de formação para professores de educação física, além de propor desafios para estimular o ambiente escolar.
Diretamente, o programa já atende, desde 2013, 3 mil escolas públicas com 3 milhões de alunos nos estados de Minas Gerais, do Amazonas, do Distrito Federal e do Rio de Janeiro, com visitas periódicas, acompanhamento das atividades e promoção de cursos presenciais, além de visita de atletas olímpicos e paralímpicos. É um excelente começo.
Todavia, não há previsão de continuação do programa após os Jogos Olímpicos e o “Transforma” não oferece apoio financeiro nem equipamentos esportivos para as escolas participantes. Faltam recursos.
O governo federal tem obrigação histórica de estender o “Transforma” para todo o território brasileiro, garantindo orçamento e transferências de recursos para os Estados e municípios da federação.
O momento é muito oportuno para – governo e sociedade – implementarmos uma nova visão de futuro, elegendo a Educação como prioridade nacional, como projeto de Nação. La recherche du temps perdu.
O momento é de esperançar!

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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO – Crônica de Rinaldo Barros

TempoA conversa desta vez é sobre os descaminhos a que o lulopetismo levou o nosso país, frustrando os sonhos de duas gerações de brasileiros.
Relembro Mário de Andrade, em sua constatação sobre a metáfora do brasileiro como Macunaíma, o retrato cultural do povo brasileiro.
Vejam se não é a cara do Lula: segundo Mário, o brasileiro é “índio branco, feiticeiro, mau caráter, preguiçoso, mentiroso, egoísta, gozador, capaz de rir de si próprio e de nunca perder uma piada”.
Lamentavelmente, este é um terreno bastante fértil para, frente à impunidade, florescer atos de corrupção, praticados com naturalidade, sem que sejam vinculados com a questão da ética ou com a moral vigente. Um passo para aceitar e praticar a corrupção em geral, em todos os segmentos e níveis.
Além disso, Gilberto Freire ensinou que “a família patriarcal determinou toda nossa estrutura social e as relações com o poder público”. Formou-se sociologicamente “uma invasão do público pelo privado, do Estado pela Família”.
O povo brasileiro capacitou-se a conviver “espertamente” com situações adversas de exploração, violência, corrupção, miséria moral, discriminação, desemprego, analfabetismo, utilizando-se das armas ou mecanismos psicológicos os mais diversos.
Ou seja, o nepotismo e a corrupção eleitoral são culturalmente aceitos pela imensa maioria da população, como algo “natural”, são instituições antropológicas da nossa mestiçagem.
Acrescente-se a isto o fato de que mais de 70% do eleitorado é formado por analfabetos funcionais (lê, mas não entende), e ainda, que os milhões de excluídos possuem apenas um único compromisso, que é consigo mesmo, com sua sobrevivência; ou seja, são facilmente corruptíveis. É assustador.
E, sob outra ótica, relembro que a história contemporânea nos levou ao término da onda industrial, à universalização da sociedade da informação (dominada pelo grande capital financeiro internacional), aos lucros astronômicos das grandes instituições financeiras, fenômeno que fez explodir o estoque de recursos financeiros, dos quais uma boa parte tem se destinado a perigosas especulações de curtíssimo prazo.
Lula, espertamente, conseguiu apoio dos dois polos que decidem uma eleição: 1) engabelou grande parte dos milhões de pobres e excluídos, com políticas compensatórias, tipo Bolsa-Família e; 2) obedeceu aos ditames da banca internacional, coordenadora da especulação; ganhando a confiança das “zelites”.
Mas, contraditoriamente, Lula não teve vontade, coragem ou competência para implantar reforma alguma no patropi, pois as reformas política, agrária, tributária, universitária, urbana e trabalhista nunca saíram do papel; sem falar que a educação, a saúde e a segurança estão piores do que nunca.
O PT, ao tempo em que conseguiu certa transformação, com ascensão social (o que poderia ser considerada uma ação de esquerda), “conquistou” a classe dominante, mantendo a ordem sem acirrar conflitos, e protegeu o lucro das grandes empresas; principalmente, o lucro astronômico do sistema financeiro.
Os governos do PT, seus descaminhos, resultaram em desordem social e econômica, 12 milhões de desempregados, inflação, juros altos, desigualdade social crescente, 60 mil homicídios por ano, violência e tráfico de drogas e armas sem controle, corrupção endêmica, e fuga de investidores.
Mais arriscado ainda: o êxito eleitoral, nos últimos 13 anos, fez subir à cabeça do ex-presidente o sentimento de que realmente ele pode tudo e mais um pouco; fazendo-o agir como se fora um cidadão acima da Lei. Foi tomado pela ilusão do poder e pela arrogância, perdeu-se.
Fecha-se agora o ciclo aberto com a Carta ao Povo Brasileiro (escrita em 22 de junho de 2002), quando o PT rasgou seus princípios, e ajoelhou-se. Um fato, pelo menos, é evidente: o Lula que “lutou contra a ditadura” nos anos de chumbo não existe mais, morreu desde 2002. O que sobrou é um zumbi.
Recentemente, o PT governo sofreu uma reprovação das contas de 2014 e 2015 pelo TCU, somada à decisão do TSE em investigar as suspeitíssimas contas da campanha para reeleição da (ainda) presidente.
Sem maioria no Parlamento, e denunciada por tentativa de obstrução à Justiça, Dilma está só e à beira do precipício. O impeachment, a ser votado no Senado, é uma possibilidade concreta.
Na verdade, Dilma não tem nem mesmo o apoio do Lula – também às voltas com a Justiça.
A única certeza, o fato, é que os sonhos de duas gerações foram atirados na lata do lixo da História.
No patropi, estamos – como diria Marcel Proust: “Dans la recherche du temps perdu”.

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CABEÇA DO ELEITOR – Crônica de Rinaldo Barros

PARTIDOS POLÍTICOSEsta semana, um amigo pediu-me para escrever sobre a atual realidade das relações entre os políticos, no afã de consolidarem as “alianças” para as próximas eleições. “Alianças”, nas quais a desconfiança mútua reina absoluta. Sabem do que são capazes.
Sem querer ofender nem atacar quem quer que seja, lembro uma pesquisa qualitativa do IBOPE, cujo resultado constata que Macunaíma, disfarçado de “jeitinho” ou de “lei do Gerson”, povoa o mundo político, aqui no patropi.
Dia desses, escrevi aqui uma análise sobre o caráter do povo brasileiro. Busquei âncora no personagem “Macunaíma”, o herói sem nenhum caráter, criação máxima de Mário de Andrade para simbolizar a essência psicológica que compõe a argamassa histórica e social do povo brasileiro.
Não é à toa que as CPIs quase sempre acabam melancolicamente em pizza, e sem provocar qualquer comoção na sociedade. Tudo está dentro da “normalidade”. Faz parte, é nossa cultura.
Pois bem. Uma pesquisa inédita do IBOPE revela que o eleitor brasileiro é conivente com a corrupção política e que a falta de ética não é um problema apenas da classe dirigente: 75 (setenta e cinco) por cento dos entrevistados afirmam que cometeriam um dos atos de corrupção listados na pesquisa se estivessem no lugar dos políticos denunciados.
Ora, “ao imaginar que poderia cometer um desses atos, o eleitor provavelmente é tolerante com o político que o fizer”, explica a cientista social Sílvia Cervellini, diretora de Atendimento do Ibope Opinião, responsável pelo trabalho. O eleitor é cúmplice e vítima, a um só tempo.
O estudo revela também que a transgressão de leis para obter benefícios materiais pessoais é praxe na sociedade. Essas infrações ocorrem na sociedade como um todo
“É importante deixar de demagogia e parar para pensar no que é preciso fazer para aumentar a ética no país”, conclui Silvia.
Há alguns componentes interessantes. Apesar de amplamente disseminada na sociedade, a tolerância à corrupção é menor entre as mulheres, os mais velhos e os de menor escolaridade; o que nos aponta um caminho, uma luz.
As mulheres seriam mais honestas que os homens. Os pouco letrados seriam mais honestos que os doutores. E os da melhor idade seriam mais honestos que os jovens. Será?
Pior, a pesquisa também alerta para a tragédia da contaminação da juventude mais escolarizada, pelo vírus da ausência de valores morais. Lamentável!
Este é um tema a ser aprofundado: quais valores estamos ensinando em nossas escolas e universidades? Como estamos cuidando dos nossos jovens? Onde foi que erramos?
Voltando à pesquisa, os eleitores entrevistados têm uma reação dúbia em relação à corrupção. Ao mesmo tempo em que condenam as irregularidades, reconhecem que cometeriam atos ilícitos se tivessem oportunidade. O falecido Prestes dizia sempre: “esse é o povo que temos! ”.
Paralelamente a tudo isso, com os partidos políticos em estado de agonia ética e em processo de esfacelamento, as circunstâncias históricas apontam para o surgimento de um novo populismo no Brasil, acima dos partidos e das coligações.
É possível afirmar que, nestas eleições municipais, a maioria dos eleitores será pragmática. As razões do voto serão ditadas pelos benefícios que cada um recebeu ou poderá receber. E a visão do que é melhor para o município dependerá da ótica que cada um tem da sua Aldeia e será filtrada pelos próprios interesses, particulares.
Registre-se ainda que a abstenção será alta e o número de votos nulos será grande.
Resumo da ópera: Tirante uma ínfima minoria, seria utópico pensar que, no patropi, a maioria do eleitorado vota pensando no interesse coletivo. O individualismo é muito mais forte.
Cá do meu canto, desconfio que tudo isso seja apenas o início de um novo ciclo histórico inusitado, uma espécie de populismo de alta tecnologia, combinado com o poder da mídia e da diabólica Internet (uma via de mão dupla), fazendo e desfazendo a cabeça do (e) leitor.

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MARAS: CRIME DESORGANIZADO – Crônica de Rinaldo Barros

maras
Dedico este texto ao olhar triste das crianças de rua e à juventude em perigo, perdida e sem rumo, frutos desta sociedade suicida em que vivemos.
O fato de o Brasil ter sido declarado pela ONU como o pais das Américas com a distribuição menos eqüitativa de sua riqueza, é dramaticamente expressado nos milhões de crianças brasileiras sem possibilidades de um desenvolvimento humano digno.
A conversa de hoje será sobre a proliferação de gangues de jovens que assolam populações inteiras com violência. Elas pululam onipresentes nas periferias urbanas de vários países, sempre com as mesmas características. São as Maras.
A socióloga Maria L. Santacruz Giralt, do Instituto Universitário de Opinião Pública (IUDOP), de El Salvador, explica: “A violência das Maras é fundamentalmente orientada para a destruição daqueles que ela considera inimigos: jovens de condições sociais e econômicas muito semelhantes, que somente se diferenciam pelo fato de pertencerem ao grupo rival”.
O conflito é totalmente irracional, sem o menor argumento racial, religioso ou ideológico, mas ainda mais irredutível porque, aos olhos de seus membros, fundamenta em grande parte a legitimidade do bando. Trata-se de jovens extremamente incapazes de imaginar um futuro qualquer para atingir qualquer nível de organização. São organizados apenas para furtar e prontos para agredir e matar se necessário, movidos apenas pelo instinto; gerando pânico na população.
É o crime desorganizado. É o prototerrorismo, fonte generosa de quadros para o narcotráfico.
Ostensivamente presentes nos bairros populares e na periferia de grandes cidades, onde seus grafites cobrem os muros, as Maras agem também nas principais cidades do Brasil. A maior concentração talvez seja em São Paulo e Rio. Mas, Salvador e Recife já disputam o primeiro lugar.
Esses grupos têm geralmente entre trinta e sessenta membros, dos quais 63,7% têm entre 16 e 21 anos e 17,3% são garotas. São centenas de grupos, distribuídos por bairros ou favelas, com total autonomia de ação.
São meninos e meninas muito pobres que não têm outra coisa para partilhar a não ser sua miséria, lato sensu. Baseiam sua existência exclusivamente na pobreza absoluta, desemprego, ausência de educação e de valores morais.
A tendência é construir mais presídios que escolas. Já estamos destruindo escolas…
Realimentando o processo, o desemprego não pára de crescer e um processo de pauperização acelerada afeta a maioria das camadas sociais e tem um impacto dramático sobre o núcleo familiar, deixando jovens sem futuro e entregues a si próprios.
Cerca de 18% dos jovens brasileiros estão fora da escola, informa a OIT. Nem estudam, nem trabalham.
Na população das periferias urbanas, e principalmente entre os mais jovens, prevalece um sentimento de impotência e de ausência de alternativa política, que contribui para fazer da vida na Mara a única escapatória. Dizem: “A “Mara” é minha família, sua marca tatuada em meu corpo me liga a ela para toda vida”.
Com suas origens históricas localizadas em Los Angeles, Califórnia (EUA), esse fenômeno atravessa fronteiras e, além do Brasil, já se faz presente como se fora uma nova geografia da violência em El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e Panamá, estendendo-se já ao México e a Colômbia.
Essas informações nos levam a assuntar que, com a modernidade, o mundo tem gerado mais riqueza e mudado para melhor. Todavia, paradoxalmente, para as crianças pobres pouco tem mudado. Para os meninos e meninas pobres que fazem da rua sua morada, e das atividades ilegais sua forma de sobrevivência a situação é ainda cada vez pior.
A violência dos adolescentes infratores de hoje tende a ser ainda maior porque se sentem miseráveis num mundo cheio de riqueza, opulência e possibilidades. Sua rebelião, é maior, mais arraigada, mais profunda, e atrai a um número cada vez maior de excluídos.
As Maras nada mais são do que respostas desesperadas de seres humanos embrutecidos, sem qualquer perspectiva de futuro, a uma injustiça estrutural, sistêmica, corrupta e desumana. O que fazer?
Uma boa pergunta para o (e)leitor fazer à sua consciência, nas eleições deste ano, na hora de votar.

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REPENSANDO NOSSO TEMPO – Crônica de Rinaldo Barros

LEIA E VEJA O QUE MARCUS TULLIUS DIZIA 55 a.C

filósofo, orador, escritor, advogado e político romano

A conversa de hoje é uma reflexão em defesa da nossa jovem Democracia, duramente conquistada; uma espécie de alerta sobre um fenômeno político ainda em gestação aqui no patropi, mas com raízes já fincadas em alguns países da América Latina: o surgimento de uma nova Autocracia. Vejamos.
Estamos assistindo o alvorecer de uma nova era política em terras crioulas.
Com a mundialização da economia, com a crise na União Europeia, com o enfraquecimento do Mercosul, com novo governo federal à vista, necessariamente, teremos uma nova realidade política em toda América Latina e Caribe, como de resto em todo o planeta.
Todavia, o impeachment presidencial é necessário, mas não é suficiente.
Nossos governantes e parlamentares, assim como, todos os homens de boa vontade, estão obrigados a repensar o nosso tempo. Como já tive oportunidade de lembrar aqui, o sucesso de rótulos como “pós-moderno” e “pós-industrial” evidenciam a incapacidade de os nossos dirigentes e intelectuais pensarem a partir do nosso próprio tempo.
Temos tentado pensar a partir do que já foi, e já não é mais.
Como se não bastasse, é lamentável a palpável cooptação de muitos outrora importantes movimentos sociais (como o sindical, o de mulheres e o de estudantes, por exemplo). É igualmente preocupante a despolitização das novas gerações, às voltas com um individualismo estéril, terreno fértil e perigoso para as manipulações. E somente os dinossauros ainda não perceberam a força descomunal da internet, revelando inusitadas formas de comunicação social.
Ninguém está preparado ainda para lidar com essa novíssima realidade. Trata-se de uma série de especificidades, eivada de ambiguidades, tecendo redes complexas e fragmentadas de conceitos e paradigmas, as quais vão se redefinindo, por sua vez, junto a cada movimento do real, a uma velocidade alucinante.
É uma espécie de entrelaçamento de novas reflexões que envolvem a arte, a cultura, a pedagogia, a tecnologia, a política, a economia, a produção de conhecimento, a internet e, como não poderia deixar de ser, os pressupostos filosóficos. Há um silêncio ensurdecedor da “intelligentsia” sobre o nosso tempo.
Acredito que o próprio papel de intelectual está igualmente se redefinindo, da mesma forma que cabe o questionamento dos conceitos do que antes se entendia como sendo “esquerda” e “direita”.
Não se trata, é bom que fique claro, de afirmar o fim da história. Muito pelo contrário.
Trata-se, mais do que nunca, de reencontrar um Novo Iluminismo, como continuidade do processo histórico, das manifestações do novíssimo fazer humano.
Esta reflexão tem a influência direta das minhas releituras, notadamente de um dos livros de Cornelius Castoriadis, filósofo francês (Encruzilhada do Labirinto), a partir do qual ousei intitular este texto.
O cenário atual do patropi é composto por partidos fracos e sem novas lideranças, Congresso desmoralizado, corrupção endêmica, sindicalistas que viraram banqueiros, fundos de pensão (milionários) atraindo sócios privados privilegiados. Ressalte-se que, no Brasil, os fundos de pensão não são apenas acionistas – com a liberdade de vender e comprar em bolsas – mas são gestores que controlam os conselhos de grandes empresas. Uma baita fonte de corrupção.
O fato é que – devagarinho, o vírus da Autocracia minou o espírito da nossa Democracia constitucional; a qual pressupõe regras, informação, participação, transparência, representação, deliberação consciente e controle social. Nada disso existe em nossa República Surrealista dos Trópicos (Mestre Walter, sua bênção!)
Em verdade, continuamos a ser uma República sem povo.
Trata-se de um processo de desmoralização das instituições, combinada com o incessante culto à personalidade, a um só tempo autoritário e popular. Uma espécie de “fulanização” da política.
A meu ver, o Brasil vivenciava com o PT (e ainda corre o risco) um processo de criação de um novo e duradouro bloco de controle da máquina estatal, capaz de se manter por algumas décadas. (Aliás, este sempre foi o projeto do PT: conquistar o poder e governar para transformar, autocraticamente, o Brasil numa “potência” bolivariana.
Por trás desse “imbróglio” gigantesco, há toda uma camada de valores a ser estudada pelos analistas sociais. Com um problema: seu estamento intelectual – e aí se incluem os políticos – não pensa como a maioria do povo. Pior: nem sabe como essa maioria pensa.
E não adianta maldizer a realidade. Ela não deixará de ser real por isso. Estes são os fatos!

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QUESTÃO DE HONRA NACIONAL – Crônica de Rinaldo Barros

MENTE FECHADA
Esta crônica foi publicada no dia 02 de julho de 2015. Triste, republico. Sem mudar uma vírgula.
Vou abordar o assunto de hoje com muito medo de estar certo. O caro leitor pensa que a crise no setor energético é a mais séria dos últimos tempos?
O “apagão elétrico” provocado pela gana demagógica (?) é fichinha perto da escassez (absurda) de professores no Ensino Médio brasileiro.
Relatório recente da Câmara de Educação Básica, do Conselho Nacional de Educação, calcula haver um déficit em torno de 235 mil professores (e crescendo), aqui no patropi, apenas no Ensino Médio. Somente para a disciplina Física são necessários mais 55 mil novos docentes.
O que assusta é que, nos últimos dez anos, as universidades brasileiras, todas reunidas, formaram pouco menos de 10 mil licenciados em Física. A situação é parecida também para Matemática, Química e Biologia.
E os concursos públicos não conseguem selecionar novos docentes em quantidade suficiente, pela simples razão de que são poucos os que ainda desejam ser professor. Não há motivação, ou atrativo, que estimule a qualquer brasileiro a optar pela trilha da docência, nem mesmo no Ensino Superior.
Perdemos o respeito pela nobre missão de educar, professores são maltratados e agredidos em sala de aula, assim como perdemos a capacidade de compreender que a causa verdadeira está na ausência de um Projeto civilizatório de Nação.
Perdemos também a visão de estadista na maioria de nossos governantes. Hoje, governa-se apenas com o objetivo da reeleição ou do continuísmo. Por outro lado, em geral, as greves são articuladas como estratégias político-eleitorais.
O alerta é o seguinte: caso não ocorra uma revalorização dos nossos professores, emprestando dignidade à remuneração e às condições de trabalho, e com um novo projeto político-pedagógico, o Brasil estará em sério risco de um apagão educacional e, por consequência, de um apagão de força de trabalho qualificada.
Por falta absurda de professores!
Tenho certeza que o caro leitor concorda que é preciso compreender a questão educacional como parte de um Projeto de Nação; urge partir para o enfrentamento das contradições que impedem a redução da desigualdade histórica e cultural em nossa sociedade, expondo sua diversidade enriquecedora, mobilizando as vanguardas intelectuais de toda a sociedade civil e todos os níveis de poder.
É uma questão estratégica, de honra nacional, resgatar o valor moral e de mercado da profissão de professor. Se quisermos, de fato, inserir a maioria da população na economia moderna, é essencial universalizar o Ensino Básico, com a qualidade adequada ao mundo atual, mutante e inovador.
Hoje, também o empresário pede uma escola básica de boa qualidade, não porque se tenha convertido às causas sociais, mas porque o analfabeto já não dá lucro. Vivemos na sociedade da informação.
Esta função da escola, principalmente da escola pública – de desfazer a pobreza política – depende de sólida formação básica, voltada para o empreendedorismo e para as tecnologias da informação.
Estou convicto de que a causa da pobreza material é a pobreza política, a pobreza de espírito, pois, mais grave que não ter é ainda não ser.
Do jeito que está hoje a situação, no patropi, é muito difícil convencer um jovem de que ele será capaz de ganhar mais dinheiro se continuar numa escola do que se entrar no circuito das drogas.
Para reverter essa tendência suicida, e evitar a barbárie, é imprescindível eliminar a miséria e a fome, urbanizar os espaços degradados, organizar as comunidades, federalizar e universalizar o ensino fundamental e médio, valorizar a escola e resgatar o papel fundamental do professor.
Bate uma tristeza imensa quando imagino que seria possível nos apropriar da tecnologia da informação e comunicação para construir redes solidárias, que articulem experiências e práticas testadas historicamente, construindo para a nossa terra uma alternativa humanizadora, inclusiva, democrática e cidadã. Todavia, a dura e sofrida realidade nos joga na cara a possibilidade contrária: um soco no estômago! Resumo da ópera: estamos na encruzilhada do labirinto e no limiar da ética histórica.
Uma questão de honra nacional!

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