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MISTÉRIOS E DÚVIDAS INSONDÁVEIS – Crônica de Rinaldo Barros

CIÊNCIA E FÉ
“A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia”. (Albert Einstein)
A conversa de hoje vai, provavelmente, conduzir o caro leitor a repensar questões que, na correria cotidiana, pós-moderna, não tem tempo para parar e refletir. Dúvidas existenciais.
Guardo uma atitude de perplexidade em relação às questões do transcendente: como surgiu o Universo? O Universo, foi criado ou apenas evolui e se expande infinitamente desde sempre? Por que existimos? Quem somos nós? Qual o sentido da vida humana? Existe vida após a morte do corpo físico, ou não? O que é o pensamento? O que realmente cria, arquiteta e decide, o cérebro (órgão físico) ou a mente (espírito)? Os espíritos permanecem entre os encarnados, ou se reintegram ao fluido universal? A matéria é uma forma transitória de energia, ou não? Tudo é energia, ou não? O tempo é relativo, ou é apenas uma convenção? As emoções têm base química, ou não? Há vida em outros planetas, ou não?
Minha mente flutua ora na direção da certeza, ora na direção da dúvida.
Todavia, existe uma questão ainda mais complexa que exige seriedade no seu tratamento.
Dia desses, ao afirmar que, honestamente, eu não conseguia compreender a questão da existência (ou não) de Deus, fui acusado de ateu. Protestei, pois me considero apenas um livre pensador, cujo cérebro limitado não alcança essa clareza acerca de algo tão complexo, digamos, fenômeno transcendente.
Poderia afirmar, com outras palavras, que eu não fui tocado pela graça de acreditar, de ter Fé.
Para julgamento do leitor, vou tentar definir os dois conceitos.
Ateu é aquele que se opõe terminantemente à idéia de Deus, seja qual for o nome ou aspecto sob o qual ele apareça. Ateísmo é apenas o nome que se dá ao estado de ausência de teísmo. (Ver História do Ateísmo – George Minois. São Paulo: Ed. Unesp, 1946)
O agnóstico, por sua vez, não se opõe propriamente a Deus, mas, sim, declara a (im) possibilidade de a razão humana conhecer tal entidade (gnose, palavra grega, significa «conhecimento»).
Os agnósticos achamos que, assim como não é possível provar racionalmente a existência de Deus, é igualmente impossível provar a sua inexistência, logo, constituindo um labirinto sem saída a questão da existência de Deus. Agnóstico é quem acredita não ser possível conhecer a Verdade sobre determinada questão ou fenômeno.
Por outro lado, há quem conjecture, frente à situação de miséria e violência crescente no mundo atual, que o século XX foi o século da morte de Deus. A religiosidade, todavia, continua viva em todas as sociedades. Como explicar a permanência histórica de religiões milenares?
Por sua vez, a Ciência positivista, da Mecânica euclidiana, fundada no Empirismo, desprendeu-se definitivamente de qualquer apelo ao sobrenatural, separando-se das crenças. Pergunto:
O que é Deus? Provavelmente, não seria um ser humano, uma pessoa, pois estaria presente em toda a imensidão do Universo, com bilhões de galáxias. Impossível para nossa limitada capacidade de deslocamento.
A mais atualizada posição sobre esta complexidade é apresentada pelas descobertas da Física Quântica, porquanto nos leva ao surpreendente mundo das nanopartículas, subatômicas, no qual os fenômenos ocorrem sob o conceito da não-localização e apenas quando são buscados pelo pesquisador. Ou seja, podem estar em qualquer parte e só se manifestam quando são procurados. Nessa direção, cientistas já encontraram uma partícula existente em todo o Universo, o bóson de Higgs, mais conhecido por partícula de Deus.
Deus seria uma inteligência universal composta e sustentada por energia quântica? Presente em todos os fenômenos, mas somente se manifesta quando é procurado? Seria a unificação da Ciência com a Religião?
Nossa existência parece um grande mistério insondável. Prefiro admitir minha incapacidade de compreender, a abraçar uma hipótese infundada ante este grande ponto de interrogação que é a vida.
Sejamos honestos: somos seres complexos, maravilhosos, capazes de empreendimentos notáveis, mas também bastante limitados, e não temos todas as respostas ao nosso alcance – pelo menos ainda não.
Relembro que, segundo o texto bíblico, à frente de Pôncio Pilatos, Jesus silenciou quando aquele lhe perguntou: o que é a Verdade? Se até Jesus calou, quem sou eu para afirmar que compreendo algo tão grandioso? Acho que estou em boa companhia. Fica o leitor com a tarefa de concluir essa reflexão.

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SILÊNCIO DO DELATOR – Crônica de Rinaldo Barros

amanhecer
“Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado”. (Albert Einstein)
Correndo o risco de não ser compreendido nestes tempos pós-modernos, no qual tudo é descartável e efêmero, vou falar de alguns fatos históricos que marcaram uma geração; coisas permanentes. Escrevo com saudades, atiçadas pela releitura do texto fácil de José Nêumane Pinto, em seu livro antológico “O Silêncio do delator”. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.
O livro fala dos anos inesquecíveis, indeléveis, da década de 1960: quando Paris era uma festa para a resistência política às ditaduras e os movimentos sociais arrastavam multidões. Em que uma nova linguagem expressava o descontentamento e a indignação, em que as superpotências ensaiavam um confronto nuclear, surgia uma vanguarda no cinema, na arquitetura, na música, na literatura, no teatro e nas artes plásticas. Uma inspirada geração de criadores, pensadores, filósofos e intelectuais, desafiava os cânones e se impulsionava para abalar as estruturas estéticas, políticas, conceituais e morais.
Tempo em que eu achava que os sonhos se tornariam realidade, e sonhava mudar o mundo.
Era o tempo da Guerra Fria, motivada pelo auge do socialismo, com o Vietnã e Cuba impondo dura humilhação aos Estados Unidos. A música de protesto em marcha, os Beatles empunhando a bandeira do pacifismo, 1968 na França e no Brasil, Woodstock e a liberdade de expressão, o culto ao prazer e às drogas e as palavras de ordem do “faça amor, não faça guerra”.
Cultuavam-se o cinema de Fellini, Truffau, Godard, Glauber Rocha e Buñuel, o teatro de Nelson Rodrigues e Augusto Boal, os grandes festivais de música e a crença na revolução armada, em Che, Fidel e outros camaradas. O homem invade a lua, a bossa nova traz um novo alento à música brasileira; o AI-5, um balde d’água na liberdade e nas garantias individuais; a censura recrudesce, o mundo em ebulição, o existencialismo em moda, filosofias vicejando em todo o canto, o mundo acreditando numa saída.
Os ingredientes desses anos de rebeldia, insubmissão e efervescência estão mapeados no livro de Nêumane, um romance testamentário de quem viveu os legendários últimos anos de um século em agonia e desencanto, época de veloz escalonamento de valores, mudança de comportamentos, debates ideológicos e implosão das velhas estruturas de pensamento.
Nêumane saiu-se bem ao fazer o balanço crítico de uma geração, sem cair no lugar-comum, evitando o panfletismo ou o viés sentimental, tão comuns em textos que visam resgatar a história a partir da vivência de quem as conta. Trata-se de um registro sincero sobre um tempo que não se reproduzirá, um tempo em que a consciência se aliava a uma causa e se sabia por que empunhar bandeiras e gritar bem alto, algo de que carecem os que hoje tentam levantar a batuta para comandar a orquestra da história atual.
O Silêncio do delator é um formidável referencial para os que querem compreender a recente história do Brasil e do mundo. Uma obra que nos fala do enterro das utopias, a decrepitude dos sonhos, o fim das ilusões e o estabelecimento de uma nova ordem, impondo o reinado do alheamento e da passividade, no qual o mercado é o grande deus, com seu pragmatismo e seus fundamentalistas econômicos em busca do lucro máximo, o que afasta de nós qualquer possibilidade de retorno às utopias.
Para quem foi testemunha ocular dessa paixão, como fui, bateu uma nostalgia das grandes.
E a certeza de que está se encerrando um ciclo da história política brasileira. E de que estamos assistindo ao fim melancólico das “esquerdas”, no Brasil.
A ilusão do poder as matou, com o pior veneno: a corrupção!
O pior de tudo é saber que não fomos capazes de encontrar a Estrela da Manhã.
É o funeral das utopias!

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AINDA TENHO UM SONHO – Crônica de Rinaldo Barros

SONHOS E VENTOS
“Lutar contra tudo o que ofenda a dignidade humana é obrigação de todos nós. Sem sonhar, nada acontece”. (Oscar Niemayer)
Quando eu era jovem acreditava que os sonhos se tornavam realidade. Agora, continuo procurando a Estrela da Manhã, mas o céu está carregado de nuvens escuras, como se estivéssemos numa viagem sem destino e sem mapa. Parece que a realidade está invertida, como se fora fantasia ou imaginação.
Após queimar parte da massa cinzenta, creio que estou quase encontrando a trilha para tentar entender o teatro político atual, cujo elenco principal encontra-se em Brasília.
É possível encontrar subsídios para entender esse fenômeno no livro “O Pós-Modernismo” de Ana Mae Barbosa e Jacó Guinsburg, publicado pela Editora Perspectiva. Talvez encontremos ali luzes para compreender o mensalão e a lava-jato.
A cartilha pós-modernista afirma que tudo é permitido, nada é proibido, inclusive chafurdar na realidade, seja ela política, social, econômica ou cultural, individual ou coletiva, praticando todo o tipo de mestiçagem libertina ou libertária. “Tudo é descartável e inútil”, afirmam os pós-modernos. Agora, já se fala até em “pós-verdade”, esta – sim – é quem dita hoje as tendências e as opiniões de todos nós. Será?
Até porque quem governa não está no poder, e o poder real não está no governo. No patropi é assim.
O “bandido” desconstruiu o “herói sem caráter”, num espetáculo extraordinário. Diariamente, assistimos à verdade da mentira. Em outras palavras, por motivos estranhos, a mentira acabou-se revelando ser a verdade. E cada um forma a sua opinião instantânea, volátil.
Nessa realidade fantástica, em ninguém existe a preocupação se é verdadeiro ou falso o que se afirma. Trabalha-se com a verossimilhança (de verossímil), aquilo que parece ou pode vir a ser verdade.
Verdades ou mentiras já não significam mais nada, nem interessa ao telespectador nem ao internauta. O que importa e hipnotiza é o espetáculo em si, não a verdade.
Percebo um descolamento da realidade que não se confunde com o cultivo de utopias, o qual – antigamente – fazia parte da atividade política, quando ainda “ardia em mim o fogo ingênuo da paixão”.
Hoje, restou apenas um imenso delírio coletivo, no qual o consumismo e o endividamento das famílias são considerados como o surgimento de uma “nova classe média”. Sem qualquer contestação.
Ou seja, encena-se o tempo todo e, assim como na arte pós-moderna, só interessa o que chega à mídia ou ao Facebook. Para completar o entendimento, o valor dominante hoje no patropi, na sociedade sob a hegemonia do deus-mercado, pode ser traduzido por uma palavra: dinheiro.
Por ele, pode-se tudo: negociar a Dignidade, o corpo, a mente, a Liberdade. Em nome do dinheiro, tudo se transforma em mercadoria: os ideais, as crenças, as esperanças, o futuro das novas gerações, tudo.
Tempo da corrupção generalizada, da venalidade, da banalização da vida, da lassidão moral; o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, é levada ao mercado para ser apreciado por seu valor ou preço, reforçando o individualismo do “salve-se quem puder”.
É a Lei do “deve-se levar vantagem em tudo”.
A mídia e as redes sociais também trabalham com a verossimilhança. Daí as notícias ligadas ao espetáculo correrem como rastilho de pólvora. Aumentam a audiência e a venda de anúncios, aumentam o lucro. E são esquecidas na mesma velocidade. A amnésia coletiva virou epidemia.
Pergunto: será que já não está mais do que na hora de quebrar o silêncio e fazer escolhas; de mostrar que o rei e a rainha estão nus, de resgatar a ética na política, atuar claramente em defesa dos trabalhadores, das crianças, dos jovens, das mulheres, dos negros, dos excluídos, dos oprimidos em geral e das instituições republicanas, sem as quais não há perspectivas de desenvolvimento civilizatório?
Será que não é preciso e urgente desarquivar as “velhas” ideias que animaram o Iluminismo?
Lembram? Liberdade, Igualdade e Fraternidade foram lemas do nascimento da sociedade moderna. Parece que os esquecemos, ao nos desviar do papel de cidadãos para o de consumidores.
Ainda tenho um sonho. Oxalá, e esse é o maior dos oxalás, esta crise seja sinônimo de oportunidade.

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A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS – Crônica de Rinaldo Barros

escolhas-dificeis
“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay” (Miguel de Cervantes in “Dom Quixote”)
O período carnavalesco, para minha pessoa, serviu para – entre outras coisas – refletir sobre o atual contexto surrealista aqui no patropi.
Não sei porque, lembrei de uma frase dita espontaneamente por um jornalista amigo meu quando, num tresloucado gesto cometido há alguns anos, aceitou assumir o cargo de Chefe da Casa Civil do governo do Rio Grande do Norte.
Um dia liguei para o amigo em tela, dizendo que precisava falar urgente com ele para tratar de uma questão burocrática. Ao adentrar o seu Gabinete, ouvi um desabafo surpreendente: “Foi o Cão…quem inventou este cargo”, explodiu meu amigo jornalista, visivelmente incomodado com a situação / postura de autoridade Chefe de todos os demais secretários.
Não precisou explicar. Entendi de prima que se tratava do surrealismo absurdo da função que estava exercendo, enfrentando questões históricas sem solução e com orçamento fictício para suprir problemas reais crescentes; um misto de corrida contra o tempo com a ilusão do poder.
Um salto, de guarda-sol aberto, no pátio da loucura.
Pois bem, guardada a devida distância entre os fatos, o site Congresso em Foco trouxe um levantamento sobre a “maldição” que persegue já nove ministros da Casa Civil do Governo Federal. No caso federal, todos os amaldiçoados estão envolvidos com o processo de corrupção endêmico que assola nossa nação. De Dirceu a Padilha.
Cobiçada pelos políticos por causa de seus superpoderes, a Casa Civil virou sinônimo de problema político e criminal neste início de século. Todos os nove titulares que a comandaram desde 2003 enfrentam complicações na Justiça.
Um roteiro que se repete desde a queda de José Dirceu (PT), em 2005, no auge das revelações do mensalão. Quem não caiu por denúncias no período em que chefiou a casa, a exemplo da ex-presidente Dilma Rousseff, enrolou-se depois. Os ex-ministros sofrem com processos, condenações e até prisões. É a “maldição” da Casa Civil, que persegue Dirceu, Dilma, Erenice Guerra, Antônio Palocci, Gleisi Hoffmann, Aloizio Mercadante, Jaques Wagner, Lula e, agora, Eliseu Padilha.
A maldição alcança até o ato de posse no cargo.
Lula nem sequer chegou a assumir de fato. Assinou termo de posse e foi barrado no dia seguinte pelo Supremo Tribunal Federal, que o acusou de manobrar para escapar do juiz Sérgio Moro na Lava Jato. Hoje é réu em cinco processos.
Divulgação de conversa telefônica entre Lula e Dilma foi utilizada como argumento por Gilmar Mendes para suspender a nomeação do ex-presidente. Segundo o ministro do STF, intenção era fugir do juiz federal Moro. O ex-presidente afirma ser vítima de perseguição política.
Gleisi, atual líder do PT no Senado, também virou ré no Supremo. Mercadante e Wagner são alvos de inquérito da operação. Padilha se encaminha para ser mais um chefe da Casa Civil na relação dos investigados por suspeitas de envolvimento com o esquema da Petrobras.
Amigo e homem de confiança do presidente, o atual chefe da Casa Civil foi um dos articuladores do impeachment de Dilma, a quem serviu na Secretaria de Aviação Civil até dezembro de 2015. Na linha de tiro da Lava Jato, sente agora os efeitos da “maldição” do cargo.
Aposta de Dilma para substituí-la na Casa Civil, Erenice permaneceu apenas seis meses no cargo. Saiu após denúncia de tráfico de influência, que lhe renderia mais tarde voto de censura na Comissão de Ética. Também está na mira da Lava Jato.
Zé Dirceu, o mais poderoso dos ministros de Lula, em seus primeiros anos de mandato presidencial, sucumbiu com o mensalão. Quando já cumpria a prisão em regime domiciliar, foi pego na Lava Jato. A última condenação é de 20 anos de reclusão.
“A Lava Jato sobrevoa os campos do poder tal como uma ave gigante ameaçadora. Os voos estão cada vez mais rasantes”. Mas, o foco na Casa Civil dá o que pensar.
Será maldição? Ou, simplesmente, fizeram as escolhas erradas?

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FRONTEIRA DO PÂNICO – Crônica de Rinaldo Barros

Pânico violência
“Dito e feito. Tudo foi dito, e nada foi feito”. (Millor Fernandes)
Não estou certo se os responsáveis atuais pelos destinos do patropi – incluindo meus colegas da universidade, como os cientistas políticos – estão se dando conta completamente das implicações e das consequências do retorno da violência na vida pública brasileira.
Por outro lado, segundo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, “Nossa Constituição não diz o que é segurança pública, nenhuma lei diz que segurança pública é proteger a população ou investigar criminoso, só diz por quem a segurança vai ser exercida”.
As nossas polícias ainda estão reguladas por outro conceito de segurança (ultrapassado), que é a manutenção de um modelo de ordem pública, de uma situação em que o Brasil teria um inimigo interno. A lógica é que o tráfico é o inimigo a ser combatido; e deixamos de lado questões ligadas à preservação da vida.
A presença do medo da violência, dentro de uma sociedade, tem profundo impacto sobre a vida social, cultural, econômica e política de um país. Sem falar nos interesses lucrativos de algumas empresas produtoras e distribuidoras de equipamentos de segurança, e de muitos veículos de comunicação. Medo dá lucro.
Como bem lembrou o deputado federal pelo PSDB-MG, Marcus Pestana: “uma das faces dramáticas da crise brasileira é a que veio à tona nas semanas iniciais de 2017, envolvendo a segurança pública e o sistema prisional. De um lado, um verdadeiro filme de terror assistido por toda a população pela TV, em que facções criminosas organizadas nacionalmente demonstraram um nível surpreendente de atuação e apresentaram ao país um mundo paralelo, regido por regras próprias, à margem da ordem constitucional e das instituições republicanas”.
O contexto que propiciou essa verdadeira tragédia foi alimentado por nossa obsoleta ordem penal, em que contraventores de baixa periculosidade se misturam com assassinos e grandes traficantes, criando uma verdadeira “universidade do crime”. Também os baixos níveis de investimento no sistema prisional levaram a uma situação insustentável. A população carcerária é hoje, no Brasil, de 622.202 detentos. Mas as vagas disponíveis são apenas 371.884. Desafiando a lei da Física, segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço; transformando os presídios em paióis de pólvora nas mãos das facções criminosas.
Por outro lado, não haverá vencedores no confronto absurdo entre governantes e servidores policiais, militares e civis. Segurança pública é um direito universal (a sociedade tem de se sentir protegida), garantido no artigo 6º da Constituição Federal de 1988, e definido no artigo 144, como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, exercido para a preservação da ordem pública, com proteção às pessoas e ao patrimônio privado ou público.
Não parece nada razoável que policiais sequestrem esse direito da sociedade em busca de melhores salários. O leitor há de convir que serviços essenciais não devem ter direito a greve porque em sua ausência impera o caos, refletido nas imagens terríveis a que assistimos no Espírito Santo.
Mas também não é nada razoável que morra um policial a cada dois dias no Rio de Janeiro, como se estivéssemos numa verdadeira guerra civil. O diálogo e o respeito mútuo têm que ser a premissa.
As raízes da crise são muitas: a lógica infernal da burocracia; o estrangulamento orçamentário que limita os investimentos; as aposentadorias precoces e dificuldade de reposição dos efetivos; as falhas na política de combate às drogas e ao crime organizado; a peneira furada em que se transformaram nossas fronteiras; e o fracasso na prevenção que deveria vir do sistema educacional e das políticas voltadas para crianças e jovens em situação de risco social.
Há um efeito acumulado de experiências negativas; isso se soma a condições ambientais que estimulam o medo, tais como: o abandono de regiões periféricas das cidades, desemprego de milhões de pessoas, consumo e venda de drogas e álcool em vias públicas, iluminação pública deficiente, prédios abandonados, veículos abandonados em vias públicas, entre outros. Todos são sinais da ausência de um poder público presente e eficaz, que, certamente, favorece a manutenção do medo generalizado.
O medo, com a sensação de ausência de um poder público capaz de prover segurança coletiva, combinado com a impotência dos cidadãos para exercer controle sobre as autoridades, estimula a adoção de estratégias individuais para “diminuir o risco” de serem vítimas da violência.
Receio que a população brasileira esteja na fronteira do pânico.

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A MORTE, EM RÁPIDAS PINCELADAS – Crônica de Rinaldo Barros

Morte
“No final, descobrimos que a única condição para a vida existir é a morte” (José Saramago)
É bom prestar atenção a este assunto. Porque o que ele diz tem tudo a ver com o destino de cem por cento dos seres humanos: a morte.
Não é recomendável fazer de conta que o assunto não é fascinante. Porque é.
Não adianta chamar o assunto de “mórbido”, “deprimente”, “lastimoso”, “incômodo”, “desagradável”.
É bobagem recorrer a este velho arsenal de adjetivos, porque eles, no final das contas, servem apenas como desculpa para que não se encare um fato: um dia, o planeta seguirá existindo sem nossa presença física.
A ideia de morte faz que com tudo passe a valer a pena. E torna tudo impossível, também. É, portanto, um dos mais fascinantes temas da vida sobre o planeta Terra, de nossas vidas!
Uma das coisas que devemos lembrar é que a porcentagem de pessoas que morrem é de cem por cento! Todo mundo vai morrer um dia. A medicina tenta nos afastar da morte, mas não funciona. Porque todos nós temos de morrer.
Tenho medo da extinção, sim. Isso me preocupa. Mas, biologicamente, materialmente, sei que não existe escolha. Tenho também medo de morrer nas mãos de um médico que não saiba como cuidar de mim. Ou seja: um médico que continue tirando raios-x e tomografias, em vez de me consolar e me dar analgésicos.
Há duas maneiras de pensar na morte. Você pode pensar na morte o tempo todo, o que é uma bobagem. Também pode não pensar nunca, o que é igualmente estúpido.
É difícil encontrar um meio termo.
Mas, quando a gente envelhece, estatisticamente passa a ficar mais próximo da morte do que quando tínhamos quinze anos, por exemplo.
A morte é, portanto, uma daquelas condições que não podemos imaginar. Podemos, por exemplo, olhar para a noite passada. Ali, estávamos “mortos”. Porque estar dormindo sem sonhar é como estar morto. É o que todo mundo faz toda noite. Não é nada de grandioso. Mas o medo de uma situação irrecuperável – o “não-ser” – é uma das piores coisas sobre as quais temos de pensar. Porque não podemos imaginar o Universo sem nós. Temos a pretensão (?) de que somos o centro, que tudo o mais existe apenas para nos homenagear ou abrilhantar nossas vidas.
É impossível contemplar o nada, o “não-ser”. Mas, de repente, penso nos milhões, bilhões, de anos em que ainda não éramos nascidos. O fato de não termos existido antes não é um problema para nenhum de nós. Qualquer criança pode entender! É algo que não incomoda a ninguém. Mas aí nós nascemos, vivemos por setenta, oitenta, anos – por exemplo – e morremos. Por milhões de anos adiante, estaremos mortos. O fato de que estaremos mortos por milhões de anos adiante nos incomoda!
É engraçado este incômodo, porque não faz sentido. Creio que este incômodo acontece porque, neste caso, estamos falando de nossa própria morte, algo que não podemos imaginar.
Aliás, Saramago nos ensina que somente duas coisas podem enganar a morte: a música e o amor.
A religião costuma oferecer consolo para as dificuldades da vida, e recompensa, no fim, para os fiéis. Mas, ela dá à vida humana uma noção de contexto e, portanto, de seriedade.
Ela faz as pessoas se comportarem melhor? Às vezes sim; às vezes não; fiéis e infiéis têm sido igualmente criativos e maus. A religião cumpre um importante papel social. A religiosidade é universal.
Mas, ela é verdadeira ou se trata apenas de uma sublime ficção necessária?
Segundo Julian Barnes, talvez a divisão da humanidade não seja entre religiosos e não-religiosos, mas entre os que temem a morte e aqueles que não a temem: os que creem que o espírito não morre, que a alma é preexistente ao corpo físico, os que creem na reencarnação.
São os adeptos de uma doutrina filosófica que reúne Ciência e Religião: espiritismo.
Ensina Barnes que, “então, caímos em quatro categorias, e esclareço quais as duas que eu considero superiores: os que não temem a morte porque têm fé e os que não temem a morte apesar de não terem fé. Estes, a meu ver, estão no mais alto plano da moral. Em terceiro lugar, vêm aqueles que, apesar de terem fé, não conseguem se livrar do medo antigo, visceral, racional. E, finalmente, fora do quadro das medalhas, abaixo da média, vêm aqueles que temem a morte e não têm fé”.
Resumo da ópera: não podemos saborear realmente a vida sem a consciência de sua extinção.
Para aprender a brincar com a morte, recomendo: “As Intermitências da Morte”, de José Saramago, Companhia das Letras, 2005.

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