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CARTA A CHICO TRIPA – Crônica de Rinaldo Barros

PODER DO POVO

Chico Tripa,
Sei que você não sabe ler direito e, se aprendeu, não gosta muito de ler, até porque a escola que você frequentou nunca incentivou o hábito em seus primeiros anos de vida. Mas, quero que saiba que existe um livro chamado “Escuta Zé Ninguém” de Wilhelm Reich (1896 a 1957), um psicanalista austríaco-americano, discípulo dissidente de Sigmund Freud. Você deveria lê-lo.
O livro é, na verdade, um apelo ao inconformismo, uma reflexão sobre o poder de cada Zé/Maria-ninguém, isto é, de cada anônimo (como você, Chico Tripa) que pensa nada poder, e ter direito apenas a obedecer e conformar-se; mas que, potencialmente, tem o poder de revoltar-se e mudar o caminho da sua era. Se você, um dia, acordar…
A verdade, Chico Tripa, é que estamos todos embrenhados apenas no nosso umbigo e na crença de que tudo o que não nos toca diretamente, não nos diz respeito. É que a maioria de nós se conforma, e só uma pequena minoria se manifesta para combater o sistema vigente, por mais inumano que seja.
E por mais que nos custe, no nosso sentido moral de quem vive numa democracia e sem medo, convictos de que nos teriam horrorizado os campos de concentração nazista e os assassinatos em massa, a verdade crua é que maioria de nós teria compactuado com o regime autoritário que todos nós hoje dizemos condenar.
Compactuaríamos, sim, por conformismo ou por medo, sem questionar.
E isto porque a maioria de nós, no fundo, ainda se acha apenas um Zé/Maria-ninguém, sem importância, sem relevância numérica, e por isso prezando o conforto da segurança pessoal acima de tudo, achando que a revolta e miséria individuais não mudarão nada, e que por isso não vale a pena lutar; e, com medo, escolhe ficar quietinho, escondido no conforto do lar, sem fazer movimento, pra não chamar a atenção dos poderosos.
Todavia, Reich ensinou que cada um de nós tem responsabilidade, sim, pelo que se passa à nossa volta e no mundo, e as maiores revoluções foram feitas por conjuntos de Zés/Marias-ninguém, que sozinhos não eram nada, mas que, em conjunto, foram conseguindo mudar as suas realidades, como surpreendentemente se tem visto em alguns países, árabes e europeus, ultimamente. E que, até aqui no patropi, já é possível perceber o seu embrião.
Basta ter coragem para fazer sempre o que achamos certo, mesmo quando parecer que estamos sós.
Sei que você, Chico Tripa, não foi educado para ter coragem. Por isso, você escolhe permanecer com a vidinha que já conhece, ainda que não goste dela.
A explicação é que, apesar de manter-se fiel às “suas convicções”, as propostas que representam o futuro a ser construído com Desenvolvimento e Paz, representam igualmente o inusitado. São – ao mesmo tempo – inovadoras e assustadoras, exatamente por serem transformadoras. No fundo, Chico Tripa, você é um conservador.
E ainda mais, Chico Tripa, você não gosta muito de pensar sobre a crueza da realidade, prefere fugir para a ficção das novelas e outros apelos guiados pelo besteirol: forró, balada, carnaval. Quanto mais vazios, melhor.
Essa fuga faz com que você não perceba as verdadeiras causas dos crônicos problemas da maioria do povo.
Senão vejamos um exemplo. O Estatuto da Cidade – uma lei que não pegou no Brasil – obriga a todos os municípios com mais de 20 mil habitantes a construir um Plano Diretor e a realizar estudos geotécnicos que definam com clareza quais são as áreas de risco e quais as áreas de interesse social, para o devido uso e ocupação do solo urbano. Todavia, apenas alguns poucos municípios construíram o seu Plano Diretor.
O governo federal e as administrações municipais, de ontem de hoje, foram irresponsáveis e não cumpriram a legislação em vigor!
Na verdade, ao lado dessa brutal ausência de responsabilidade para com o interesse público, é possível constatar – atanazando a vida do brasileiro – obras inacabadas, muita corrupção, estradas esburacadas, portos e aeroportos sucateados, trânsito infernal, saúde pública caótica, juventude sem educação e sem rumo, drogas e álcool minando a vida de milhões, insegurança e criminalidade crescentes.
A pior tragédia, entretanto, é que você, Chico Tripa, em seu desamparo, não consegue sequer perceber que foi e está sendo enganado e explorado em todas as dimensões de sua vida, através da propaganda política bem feita, desviando sua mente para um mundo de fantasia inatingível. Mentiras mil vezes repetidas.
Resumo da ópera: pela incapacidade de demonstrar indignação, pela sua ignorância bíblica, por não ter sequer voz para gritar sua miserável condição; contraditoriamente você, Chico Tripa, continua aprovando o governo de plantão, como se ainda fosse o mesmo partido que você confiou e votou (você não percebe que o Governo sempre foi aliado dos ricos e poderosos, que engana você com bolsas e cotas) e, pior Chico Tripa, você acredita que a miséria e as calamidades são obra do destino ou da vontade de Deus.
A culpa pela miséria material e espiritual não é de Deus nem da Natureza, Chico Tripa, mas da ausência de planejamento e da criminosa falta de vontade política efetivamente voltada para a construção da dignidade do povo.
Chico Tripa, eu lhe entendo. Não é que você não deseje a mudança, você a quer. Mas, você tem medo Chico Tripa, porque você foi “educado” para não assumir responsabilidades, você foi feito para se conformar.
Escuta Chico Tripa, tenho observado que você, aos poucos, sutilmente, está começando a deixar de ser besta.
Será?

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PRA ONDE VAI O PATROPI? – Crônica de Rinaldo Barros

MEU PARTIDO

Nesta conversa, compartilho com o caro leitor algumas reflexões sobre fenômenos – ainda em gestação – do nosso tempo, no Brasil e no mundo; que vão muito além do que um dia se entendeu como esquerda e direita.
Começo com a desconfiança de que a crise atua como um agente radical que muda nossas escalas de referência e valor, a estrutura de nossas opiniões, nosso comportamento e mesmo nossos direitos e deveres.
Sob a pressão da crise, o mundo e o patropi se deslocam para fora da esfera do nosso poder de intervir. Vale dizer que, se participarmos de alguma batalha política ou se nos trancarmos em casa, isso não faz a menor diferença. A crise segue em seu caminho inexorável, a cada dia produzindo novos fatos e novas versões.
Tudo se exaure no momento em que o cidadão deposita seu voto na urna, com uma expressão de assentimento, e não de participação – agindo passivamente como outorgante de uma procuração para o seu representante; para apenas resmungar e se queixar durante o longo período entre uma eleição e outra.
Ou seja, o cidadão fica assistindo a distância ao que acontece com o seu consentimento individual.
O sistema político parece ter erguido uma ponte levadiça separando os cidadãos dos seus representantes, jogo no qual o cidadão perdeu o controle dos dispositivos de mudança, de conexão, da faculdade de o privado questionar o público, exigindo respostas.
O que testemunhamos é uma espécie de “mística da mudança” que evoca a mudança e, ao mesmo tempo, a adia; até que venha um dia mágico da chegada de um Redentor, que será capaz de purificar inteiramente o sistema, no qual – hoje – apenas alguns interferem e se protegem entre si.
Carecemos de líderes capazes de fazer um gesto individual que tenha significado universal.
Dentro desse emaranhado, preocupa-me sobretudo o desenvolvimento de um fenômeno inusitado que o saudoso sociólogo polonês Zigmunt Bauman (1925 a 2017) chamou de “novas desigualdades”.
O mais estranho é constatar que nossas elites não investem com prioridade em Educação e Segurança pública, com ações preventivas. São 40 milhões de jovens entre 15 e 24 anos que, segundo o levantamento do IBGE/PNAD, não estuda, nem trabalha, nem procura emprego.
É o esmagamento do futuro. Somos uma sociedade suicida?
Claro, sempre houve desigualdades em nossas sociedades. Mas, de algum modo os pobres eram resguardados pelo sentido do “todo”, que já não existe mais, ou foi consideravelmente enfraquecido.
Falo do sentimento de fazer parte de uma história coletiva de indivíduos, livres ao menos no campo jurídico, compartilhando uma visão comum de desenvolvimento e valores essenciais.
O que estamos vivendo atualmente, em contraste com o que havia, pode ser concebido como o fim do progresso como algo unificado de uma população. A diferença – o fosso – entre os que estão do topo e os que sobrevivem na base, entre os que são agentes proativos e os que são expelidos, é lamentavelmente evidente.
Fatias inteiras de gerações e frações de classes ou segmentos sociais estão afundando na crise, presas por precariedades crônicas que as impedem de assumir qualquer nova responsabilidade ou projeto de vida (como comprar uma casa ou ter filhos); e a expulsão do mundo do trabalho, como uma condenação permanente.
A exclusão é a nova forma de desigualdade, não apenas uma de suas consequências.
O mundo dos excluídos cresce diante dos nossos olhos diariamente. São pessoas que não são nem serão capazes de participar da sociedade, apenas flutuam em suas margens, com o sentimento ou a percepção de terem sido expulsas, descartadas.
Para elas, as portas da Democracia, fundada no trabalho e em direitos, estão fechadas. Mesmo que estivessem abertas, seriam as portas dos fundos, que só levariam aos andares inferiores, sem escadaria para o crescimento ou ascensão social. Pior que isso, o uso dessas escadarias é prerrogativa exclusiva dos outros, são instrumento de discriminação ou mecanismos de privilégios.
E foi assim que a tensão positiva que mantinha a sociedade em equilíbrio foi ou será quebrada.
O que preocupa é que as elites já não se sentem mais responsáveis por aqueles que sobrevivem no subsolo do Estado-nação. E isso nunca havia acontecido antes.
Os pobres não são nada. Nós fingimos que não existem, nós os evitamos não apenas do ponto de vista físico, mas politicamente também. São ex-cidadãos que não têm mais identidade, sobrevivem numa dimensão paralela, como se fora nos destroços de um naufrágio.
Diante dessa tragédia pós-moderna, uma pergunta não quer calar: para onde vai o patropi?

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O PODER VERDADEIRO É INVISÍVEL – Crônica de Rinaldo Barros

MENTE FECHADA
Você já parou para pensar no que significa a palavra “poder”? Pois bem. Para alumiar um pouco mais sua mente, vou presentear o caro leitor com uma ótima matéria publicada no jornal “Le Monde Diplomatique Brasil”, edição de 24 de maio de 2017.
Não tem como organizar um resumo melhor do que ocorre hoje no patropi e no mundo.
Aproveite:
“1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.
2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.
3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.
4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.
5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.
6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.
7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma e, logo depois, Cunha, Temer, Aécio, FHC, Serra, Renan, depois um delator, uma empresa, depois a Lava Jato etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.
8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.
9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, a modernização das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.
10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o cidadão brasileiro adquira consciência crítica, e decida sobre o destino de seu país.
11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.
12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois. ”

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A TERCEIRA VIA – Crônica de Rinaldo Barros

TERCEIRA VIA
A conversa de hoje tem o condão de religar as vidas de milhões de pessoas com a história recente e com a busca desesperada de uma teoria que mostre a saída para a crise que se aprofunda no mundo globalizado. Vejamos.
As recentes notícias de dezenas de brasileiros que tiveram a sua entrada negada na Espanha trazem à tona uma realidade que, até algum tempo, era desconhecida: os maus-tratos sofridos por aqueles que viajam para outros países. Somente no ano passado, a Espanha impediu a entrada de três mil brasileiros.
Estima-se que mais da metade dos migrantes brasileiros que cruzam as fronteiras o fazem de maneira ilegal. Os consulados que mais informam a detenção de brasileiros no exterior são Miami (1.200 presos), Madri (400), Nagoya, no Japão (224), e Lisboa. Na verdade, os migrantes ilegais são pessoas que topam todos os riscos de uma viagem clandestina em busca de uma vida melhor, e acabam, às vezes, ficando vulneráveis à marginalidade por falta de boas oportunidades de trabalho.
É importante entender que o endurecimento das exigências para os imigrantes é resultado de uma crise do sistema, a qual vem crescendo há quase duas décadas. Vejamos.
Com a queda do Muro de Berlim, em 1989 e, dois anos depois, da URSS, encerrou-se o modelo soviético de revolução comunista. Os efeitos desastrosos de mais de 70 anos de ditadura do proletariado na Rússia e nos países satélites ficaram expostos aos olhos do mundo.
A Alemanha ali despejou centenas de bilhões de dólares, depois da unificação. Apesar disso, tal política ficou frustrada, e é apontada como uma das causas da recente derrota eleitoral de Helmut Kohl.
Por razões que escapam aos limites deste artigo, também na Rússia essa maciça inversão de capital teve insucesso. E a bancarrota da Rússia está na origem de desequilíbrios financeiros e econômicos muito além de suas fronteiras. Tais fracassos seriam absorvíveis se o capitalismo globalizado não estivesse também em crise.
Cabe lembrar, de passagem, a crise financeira que assolou seriamente e ainda abala a economia de países asiáticos. O próprio Japão não escapou ao furacão financeiro.
Constata-se que países que adotaram o modelo do capitalismo globalizado estão encontrando dificuldades cada vez maiores para solucionar seus problemas. A ganância, a busca desenfreada de riquezas, sem falar nas guerras, tem produzido distorções até mesmo na robusta economia norte-americana, hoje na marca do pênalti para entrar em recessão.
A propósito, de acordo com o chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn, os países emergentes também serão afetados pela crise financeira que, no momento, atinge principalmente os Estados Unidos e os países mais desenvolvidos.
A intelligentsia de esquerda, em nível internacional, vem denunciando o fracasso de ambos os modelos, e sugerindo algo novo. Nem capitalismo neoliberal, nem comunismo estatista: a saída está na Terceira Via. Que danado será isso?
Ora, se a chamada Primeira Via se referia às idéias socialistas tradicionais, radicais e estatais em si mesmas, e a Segunda, ao neoliberalismo e ao fundamentalismo de mercado; a Terceira Via seria a busca da renovação da democracia social nas condições contemporâneas.
O foco deste artigo, portanto, é o debate da forma como esta Terceira Via poderá contribuir para o progresso das nações.
Isso significa oferecer respostas a três mudanças que afetaram o mundo nas últimas décadas: 1) a globalização; 2) a emergência do conhecimento, incluindo-se aí a Internet, e as profundas mudanças na vida cotidiana das pessoas, com a ascensão do individualismo e; 3) a inserção definitiva da mulher no mercado de trabalho, entre outros fatores.
Resumo da ópera: a Terceira Via seria a gradativa implementação de uma economia inclusiva e pujante, servindo de base para uma sociedade democrática, com desenvolvimento sustentável, controle social e pleno emprego.
Para concluir, aqui no patropi, as forças políticas que sustentaram o governo de Michel Temer nestes difíceis, tumultuados últimos 12 meses devem entender que têm um compromisso não com o atual presidente da República, mas com a Nação. Sem o apoio delas, não haverá futuro. Não para o governo, mas para o Brasil. Resistir, persistir, lutar e andar para frente, e não voltar para trás, é o que é preciso.
Sem lugar para autoritarismos.

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ATALAIA PARA O PATROPI – Crônica de Rinaldo Barros

olhar o mundo
“Na vida é preciso ter raiz, não âncora. A raiz te alimenta, a âncora te imobiliza. ” (Mário Sérgio Cortella, filósofo brasileiro)
Esta conversa foi difícil de nascer frente à avalanche de informações que a realidade nos presenteou nos últimos dias. Soterrado pela montanha de notícias, este escrevinhador sofreu diante da tela em branco.
Encontrei a saída numa comparação entre dois mundos, aparentemente, diferentes: França e Brasil.
Apesar da distância no nível de riqueza e cultura, França e Brasil têm muitas semelhanças. A República Francesa convive com um gigantesco setor público que drena quase sessenta por cento da riqueza nacional, o mais caro entre as nações desenvolvidas. O corporativismo também é marcante na economia francesa. Cerca de dez por cento da população local é composta por funcionários públicos.
O programa de governo de Macron começa pela redução da gordura do Estado. Inclui reforma trabalhista, manutenção de idade mínima para obtenção de aposentadoria, desburocratização de negócios privados e maior integração comercial com o resto do mundo.
Tudo muito similar ao que o Brasil precisa fazer.
Em termos mais objetivos, a proposta que elegeu Macron contempla corte de 120 mil cargos públicos, um copo d’água no oceano dos quase 6 milhões de servidores que o Estado francês mantém. E também a redução de impostos e encargos sobre salários, além de prever a possibilidade de flexibilizar a jornada de 35 horas semanais de trabalho para estimular a geração de emprego e brecar os dez por cento de desemprego.
Macron foi eleito com sessenta e seis por cento dos votos válidos (lá o voto não é obrigatório) defendendo abertamente ajuste nas contas públicas, cortes de gastos, enxugamento da máquina. Levará adiante uma reforma para moralizar a política. E temperou sua proposta de programa de governo com a defesa de direitos e liberdades individuais, bem como medidas ambientais em favor de uma matriz energética mais limpa em toda a Europa.
Lá como cá, as reações eram previsíveis. No primeiro dia após a vitória de Macron, já aconteceram os primeiros protestos antirreforma. Nenhuma surpresa: mobilizam-se os sindicatos, sempre eles, contrários ao que consideram “perda de direitos”.
Qualquer semelhança com os sindicatos brasileiros não é mera coincidência…
As reações são prova do êxito de Macron. Ele venceu porque teve lado. Foi direto e firme ao defender suas propostas.
Venceu porque peitou de frente com o populismo, tanto de extrema direita quanto de extrema esquerda, cujos partidários preferiram ficar em casa a votar no domingo. Macron triunfou por resistir a políticas protecionistas e antiglobalização. Sagrou-se vitorioso sem prometer o inexequível, sem usar a mentira para conquistar votos. Sem bolsas nem cotas.
Seu desafio agora é transformar o apoio que obteve nas urnas no domingo em suporte parlamentar, em eleição marcada para junho, e conquistar os reticentes que preferiram se abster ou votar branco e nulo.
A vitória de Emmanuel Macron na França tem muito a ensinar à situação política brasileira. Mais novo presidente da história francesa, ele elegeu-se surfando numa agenda de reformas, com viés liberal, e resistindo aos extremos populistas e estatizantes das propostas de seus adversários.
A França talvez esteja nos ensinando que uma agenda claramente liberal e reformista tem grandes chances de êxito em economias engessadas por corporativismos, direitos considerados arraigados e intocáveis e privilégios deploráveis em nações vergadas pelo peso do Estado.
Um belo farol para o Brasil.
Oxalá, aponte caminho para o patropi que irá às urnas em 2018.

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DERROCADA DO HOMO SAPIENS – Crônica de Rinaldo Barros

homosapiens

Em artigos anteriores, abordei, a voo de pássaro, a história do surgimento da vida em nosso planeta. Lembro que o Homo sapiens sapiens (também chamado de pessoa, gente, homem) surgiu há aproximadamente 200 mil anos atrás, possivelmente na África. Em verdade, deveríamos falar que o que somos hoje é o resultado da intersecção de duas histórias paralelas: a história natural e a história social.
Daí porque a própria evolução deve ser repensada como uma co-evolução. Os Homo sapiens sapiens co-evoluímos em conjunto com as outras espécies, com o meio ambiente e com o cosmos. Ou seja, participamos de um sistema vivo complexo, aberto e em expansão. Voltemos ao começo.
Após a derrocada dos nossos primos, Homo Sapiens neanderthalensis, ficou a impressão de que a nossa subespécie, Homo sapiens sapiens, a exemplo dos demais animais, passaria a relacionar-se com a Natureza como uma unidade harmoniosa. Santa Ingenuidade! No começo, até que era assim. Mas, alguns de nós logo descobrimos o fascínio que é exercer o poder sobre os demais. E as formações sociais tornaram-se cada vez mais divididas.
A ciência comprova que foi na passagem do estágio superior da barbárie para a civilização que, com um maior domínio sobre a Natureza, pôde o homem aumentar sua produção e com isso obter um excedente.
Neste momento, nasceu a ganância.
Surge então a propriedade privada, a divisão do trabalho e com ela um salto no desenvolvimento da história. Com a propriedade privada, os produtores não produzem mais em comum para seu próprio consumo, mas individualmente. E se separam do resultado de seu trabalho, não sabem mais de seu destino. Agora produzem para a troca, para a venda. Percebemos que tudo pode virar mercadoria.
Surge a exploração individual da terra e sua posse privada, tornando-a, por conseqüência, uma mercadoria. No seu desenvolvimento, a troca fez surgir o mercador. Alguém separado totalmente da produção que passa a dominar o produto e a produção.
O mercador, como parasita, passa a dominar e acumula grande riqueza e com ela, prestígio e poder. Aparece o dinheiro e a moeda cunhada, instrumento de domínio do mercador sobre os produtores e a produção.
O dinheiro, como equivalente geral, elevou-se à condição de mercadoria especial. Aparecem o empréstimo, os juros e a usura. Logo, o próprio homem, como força de trabalho, virou também mercadoria.
O conflito social entre classes antagônicas levantadas sobre o modo de produzir desenvolve-se como fator subjetivo na condição de motor da história, impulsionando o desenvolvimento da tecnologia, e da competição.
Como ensina Oscar Motomura (motomura@amana-key.com.br), “tecnologia nada mais é do que a extensão de nosso dom de criar”.
Definitivamente, o Homo sapiens sapiens é um ser que cria. É a nossa natureza, nossa essência.
Gradualmente, século após século, década após década, ano após ano, cada vez mais rapidamente, vamos descobrindo mais e mais sobre como tudo funciona.
Mas criamos para quê? Com que propósito, estamos usando o dom de criação? Para que criamos novas tecnologias, novos produtos, novos jeitos de morar, de cozinhar, de movimentar, de transportar, de comunicar?
Imagine o leitor os impactos positivos que poderiam advir com a aplicação do conhecimento novo nas áreas da Biotecnologia (genes), da Neurociência (neurônios) e da Nanotecnologia (átomos).
Essa brincadeira poderia até estar nos levando a criar mais e mais produtos para melhorar a vida e potencializar o conforto de bilhões de seres humanos. Mas, apenas a minoria está sendo beneficiada.
Sem falar na tecnologia a serviço da irracionalidade destruidora das guerras. Guerra também dá lucro.
Com nossa insuperável estupidez, inventamos a barbárie tecnológica (vide Iraque, Síria, Ucrânia, Israel, Palestina e algo em torno de 19 guerras no continente africano; todas com efeitos devastadores).
O que fazer para que não se consolide a regressão moral do homem pós-moderno (egoísta, acanhado, agachado, pequeno, sem grandeza), para o qual somente importa o “Eu” e o “Agora”?
Resumo da ópera: a desigualdade e a ganância resultam na agressão à Natureza, no desvio de recursos tecnológicos – e em nossa própria capacidade criativa – para a busca do lucro máximo e do consumo supérfluo, motores da derrocada do homo sapiens (assim mesmo, com minúsculas).

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