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Opiniao Politica

Opinião Política em Geral de Rinaldo Barros e Carlos Henrique. Política no RN e Política no Brasil.

DERROCADA DO HOMO SAPIENS – Crônica de Rinaldo Barros

homosapiens

Em artigos anteriores, abordei, a voo de pássaro, a história do surgimento da vida em nosso planeta. Lembro que o Homo sapiens sapiens (também chamado de pessoa, gente, homem) surgiu há aproximadamente 200 mil anos atrás, possivelmente na África. Em verdade, deveríamos falar que o que somos hoje é o resultado da intersecção de duas histórias paralelas: a história natural e a história social.
Daí porque a própria evolução deve ser repensada como uma co-evolução. Os Homo sapiens sapiens co-evoluímos em conjunto com as outras espécies, com o meio ambiente e com o cosmos. Ou seja, participamos de um sistema vivo complexo, aberto e em expansão. Voltemos ao começo.
Após a derrocada dos nossos primos, Homo Sapiens neanderthalensis, ficou a impressão de que a nossa subespécie, Homo sapiens sapiens, a exemplo dos demais animais, passaria a relacionar-se com a Natureza como uma unidade harmoniosa. Santa Ingenuidade! No começo, até que era assim. Mas, alguns de nós logo descobrimos o fascínio que é exercer o poder sobre os demais. E as formações sociais tornaram-se cada vez mais divididas.
A ciência comprova que foi na passagem do estágio superior da barbárie para a civilização que, com um maior domínio sobre a Natureza, pôde o homem aumentar sua produção e com isso obter um excedente.
Neste momento, nasceu a ganância.
Surge então a propriedade privada, a divisão do trabalho e com ela um salto no desenvolvimento da história. Com a propriedade privada, os produtores não produzem mais em comum para seu próprio consumo, mas individualmente. E se separam do resultado de seu trabalho, não sabem mais de seu destino. Agora produzem para a troca, para a venda. Percebemos que tudo pode virar mercadoria.
Surge a exploração individual da terra e sua posse privada, tornando-a, por conseqüência, uma mercadoria. No seu desenvolvimento, a troca fez surgir o mercador. Alguém separado totalmente da produção que passa a dominar o produto e a produção.
O mercador, como parasita, passa a dominar e acumula grande riqueza e com ela, prestígio e poder. Aparece o dinheiro e a moeda cunhada, instrumento de domínio do mercador sobre os produtores e a produção.
O dinheiro, como equivalente geral, elevou-se à condição de mercadoria especial. Aparecem o empréstimo, os juros e a usura. Logo, o próprio homem, como força de trabalho, virou também mercadoria.
O conflito social entre classes antagônicas levantadas sobre o modo de produzir desenvolve-se como fator subjetivo na condição de motor da história, impulsionando o desenvolvimento da tecnologia, e da competição.
Como ensina Oscar Motomura (motomura@amana-key.com.br), “tecnologia nada mais é do que a extensão de nosso dom de criar”.
Definitivamente, o Homo sapiens sapiens é um ser que cria. É a nossa natureza, nossa essência.
Gradualmente, século após século, década após década, ano após ano, cada vez mais rapidamente, vamos descobrindo mais e mais sobre como tudo funciona.
Mas criamos para quê? Com que propósito, estamos usando o dom de criação? Para que criamos novas tecnologias, novos produtos, novos jeitos de morar, de cozinhar, de movimentar, de transportar, de comunicar?
Imagine o leitor os impactos positivos que poderiam advir com a aplicação do conhecimento novo nas áreas da Biotecnologia (genes), da Neurociência (neurônios) e da Nanotecnologia (átomos).
Essa brincadeira poderia até estar nos levando a criar mais e mais produtos para melhorar a vida e potencializar o conforto de bilhões de seres humanos. Mas, apenas a minoria está sendo beneficiada.
Sem falar na tecnologia a serviço da irracionalidade destruidora das guerras. Guerra também dá lucro.
Com nossa insuperável estupidez, inventamos a barbárie tecnológica (vide Iraque, Síria, Ucrânia, Israel, Palestina e algo em torno de 19 guerras no continente africano; todas com efeitos devastadores).
O que fazer para que não se consolide a regressão moral do homem pós-moderno (egoísta, acanhado, agachado, pequeno, sem grandeza), para o qual somente importa o “Eu” e o “Agora”?
Resumo da ópera: a desigualdade e a ganância resultam na agressão à Natureza, no desvio de recursos tecnológicos – e em nossa própria capacidade criativa – para a busca do lucro máximo e do consumo supérfluo, motores da derrocada do homo sapiens (assim mesmo, com minúsculas).

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IDEIAS: MAIS LUZ QUE CALOR – Crônica de Rinaldo Barros

Deus e o Homem
A conversa de hoje corre atrás de uma saída para o “imblóglio” que estamos todos emaranhados. Uma tentativa de encontrar um caminho iluminado para o conjunto de nossa sociedade.
Acredito que é fundamental ver o mundo com olhos de criança, como se o estivesse vendo pela primeira vez. Na verdade, a gente sempre vê o mundo pela primeira vez. O mundo se renova a cada dia.
O mundo que vi há um segundo, não existe mais. Tudo se transforma permanentemente.
No bojo da crise que nos atormenta, há tudo para que se acelere o crescimento socioeconômico no Brasil, o que já se prenunciava antes: a busca de um conjunto de experimentos na maneira de organizar nossa sociedade que amplie, em proveito dos homens e das mulheres comuns, as oportunidades econômicas e educativas.
É preciso que as crianças, logo que aprendam a ler, aprendam também o prazer de consultar os dicionários. Quantos estudantes consultam hoje os dicionários?
Aliás, aprendi com o filósofo Rubem Alves que, ao retirar a imprecisão da linguagem falada, os dicionários cometem um assassinato. Os dicionários não, os gramáticos. Os gramáticos são os anatomistas da língua. Lidam com um corpo morto.
Quando escrevo, brinco com a alma, tentando tocar a mente e o coração de quem me lê.
E que dê braços, asas e olhos à energia humana, frustrada e dispersa, que fervilha em nosso país.
Propomos construir juntos iniciativas exemplares, que têm tudo para contar com a simpatia e com a participação de muitos cidadãos de boa vontade.
Entre as áreas mais propícias, três merecem atenção especial.
1. Desenvolver as alternativas de energia renovável. Em vez de ficarmos vidrados nos interesses imediatos que nos dividem, é melhor construir as possibilidades futuras que podem nos unir. Trabalhar juntos para transformar os agro combustíveis nas commodities que ainda não são. E para obter os avanços científicos e técnicos que permitirão mobilizar o potencial energético da biomassa – até que se possa mobilizar melhor o potencial das energias solar e eólica, diretamente.
2. Soerguer milhões de empreendimentos emergentes e pôr as finanças a serviço da produção (e não do consumo e do crédito). A crise financeira de agora impõe-nos tarefa mais importante do que a de regular os mercados financeiros: a de aproveitar melhor, mais objetivamente, o potencial produtivo do dinheiro reunido nos bancos e nas Bolsas para estimular empresas que produzem bens e serviços, gerando bons empregos.
O cumprimento dessa tarefa começa no esforço de dar às pequenas e médias empresas condições para ganhar acesso ao capital e para qualificar-se em tecnologias, conhecimentos e boas práticas.
3. Tomar as medidas necessárias para garantir, em todo o ensino público, um padrão mínimo e universal de qualidade. O avanço de nossas sociedades passa pela efetivação de um princípio singelo: cuidar para que a qualidade da educação que uma criança recebe não dependa do acaso ou do lugar onde ela haja nascido.
Duas iniciativas podem abrir o caminho:
A primeira é desenhar uma escola média que reúna e que renove o ensino geral e o ensino técnico, com fronteira aberta entre os dois. Ensino geral focado em análise verbal e numérica, não em informação enciclopédica. Ensino técnico dedicado a capacitações práticas flexíveis, não ao domínio de ofícios rígidos.
A segunda iniciativa é providenciar a gestão local das escolas pelos Estados e municípios com padrões nacionais de investimento e de qualidade. Não basta avaliar nacionalmente as escolas e redistribuir recursos de lugares mais ricos para lugares mais pobres. É preciso também recuperar redes de escolas locais que tenham caído abaixo do patamar mínimo aceitável de qualidade.
Parte da solução é associar os três níveis da Federação em órgãos conjuntos, vocacionados para apoiar, socorrer e reparar as escolas ineficientes. É o rumo da federalização de todas as escolas brasileiras, associada a uma Lei de Responsabilidade Educacional. “É o caminho, a verdade e a vida”.
O que unifica e orienta todas essas propostas é a disposição de reorganizar a economia de mercado em proveito da maioria trabalhadora. Hora de reconstruí-la, não apenas de contrabalançar suas desigualdades por meio de transferências sociais. Chega de bolsas e cotas!
Alvissareiramente, longe do falso conflito entre “nós” e “eles” pregado pelo PT; há no Brasil um grande, muito grande, conjunto de pessoas (do bem) dispostas a se mobilizarem em torno de ideias generosas.
A hora é essa. É a hora das ideias – mais luz que calor – para que o patropi encontre rumo outra vez.

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ESCOLA PARA POBRE DEVE SER RICA – Crônica de Rinaldo Barros

Sala de aula
“Ser culto é a única maneira de ser livre”. (José Marti, 1853-1895)
Sei (?) que o caro leitor compreende (?) a importância e o alcance de sua missão, aqui e agora, no Planeta. E relembro que, na história da Humanidade, algumas transformações importantes somente ocorreram porque uma determinada pessoa estava no lugar certo, e no momento certo.
A premissa desta minha ousadia se prende à constatação histórica de que as regiões com maior desenvolvimento são aquelas que fizeram e fazem maiores investimentos em prol da Educação de qualidade.
Estas afirmações óbvias, caro leitor, formam um pano de fundo para trombetear que o Rio Grande do Norte já possui potencial e mecanismos capazes de alavancar o seu desenvolvimento e, melhor ainda, com excelente capital humano, nas universidades e fora delas, pronto para ser convocado.
Sei que você sabe que a Educação não pode ser um projeto de governo ou um projeto de partido, mas um projeto da sociedade, um projeto de Nação.
É imprescindível voltar a transmitir valores universais para nossos jovens, à luz da igualdade de oportunidades, pluralismo de idéias e concepções, valorização e resgate moral do papel do professor e vinculação da escola ao mundo do trabalho. Mas, é fundamental transformar não apenas a vida do aluno tornando as escolas divertidas e prazerosas, mas todo o seu espaço de convivência. Que haja, no quintal de cada escola, uma horta ou um pomar, à chuva e ao sol, onde cada estudante plante uma árvore.
Governantes! Urbanizem os espaços degradados, emprestando-lhes vida digna.
É igualmente imprescindível adotar a educação científica em todas as escolas, a exemplo da inovadora Escola Alfredo Monteverde (Cidade da Esperança (em Natal) e Macaíba), integrante das linhas de ação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN), já em pleno funcionamento, sob a coordenação da pedagoga Dora Montenegro, o que coloca o Rio Grande do Norte no mapa da ciência mundial, através do trabalho competente do cientista Miguel Nicolelis.
Depois de dominar o sistema de escrita, as crianças devem ser estimuladas a ler para compreender o mundo e a ter mais responsabilidade na melhoria dos seus próprios textos.
Aprendamos com essa experiência, para servir ainda mais ao desenvolvimento da população.
Tenho certeza (?) que a Agenda da Educação do atual Governo vai investir forte no novo modelo de alfabetização, na construção de escolas-padrão e novos centros de ensino integrado à educação profissional, instalação de mais bibliotecas e laboratórios, com a valorização dos professores, além de implementar totalmente o Plano de Cargos, Carreira e Remuneração dos professores.
Sei (?) que aumentarão os investimentos na qualificação dos professores, oferecendo formação continuada; e que o Governo vai premiar com o 14º salário os professores que se destacarem no compromisso de melhorar a qualidade da educação pública.
Todavia, caro leitor, falta também praticar um modelo de gestão que assegure a elevação do padrão de qualidade da educação, com base no compartilhamento e co-responsabilidade, através de contrato público entre a Secretaria de Educação e a direção de cada escola, assegurando incentivos por meta atingida para reduzir a evasão e a repetência, na busca da qualificação da força de trabalho jovem; levando por todos os cantos, a esperança em forma de capacitação, atualização e aperfeiçoamento para todos.
Não se deve perder de vista que a luta pela superação dos problemas do desemprego, da exclusão, da pobreza e das desigualdades sociais, precisa levar em conta as intervenções governamentais no campo da Tecnologia da Informação. Vide exemplo do Instituto Metrópole Digital (IMD).
Penso que é indispensável nos apropriar da Tecnologia de Informação para construir redes solidárias, que articulem experiências e práticas testadas historicamente, construindo para a nossa terra uma alternativa humanizadora, inclusiva, democrática e cidadã.
Falo também do Ensino a Distância (EAD), falo de e-governo, o governo eletrônico, o governo inteligente, onde o governante estará conectado permanentemente com seus auxiliares, com prefeitos, com outros níveis de governo e com o Terceiro Setor, em tempo real.
O ciberespaço pode proporcionar uma das características mais fundamentais da vida de uma sociedade, a saber, a possibilidade de anulação das distâncias entre os ocupantes: a anulação da distância simbólica, pela comunicação eficaz sob forma digital.
Resumo da ópera: escola para pobre deve ser rica. De estímulos e recursos.
Esta é a oportunidade de agir de mãos dadas com a libertação do nosso povo, como queria Marti.

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MISTÉRIOS E DÚVIDAS INSONDÁVEIS – Crônica de Rinaldo Barros

CIÊNCIA E FÉ
“A religião do futuro será cósmica e transcenderá um Deus pessoal, evitando os dogmas e a teologia”. (Albert Einstein)
A conversa de hoje vai, provavelmente, conduzir o caro leitor a repensar questões que, na correria cotidiana, pós-moderna, não tem tempo para parar e refletir. Dúvidas existenciais.
Guardo uma atitude de perplexidade em relação às questões do transcendente: como surgiu o Universo? O Universo, foi criado ou apenas evolui e se expande infinitamente desde sempre? Por que existimos? Quem somos nós? Qual o sentido da vida humana? Existe vida após a morte do corpo físico, ou não? O que é o pensamento? O que realmente cria, arquiteta e decide, o cérebro (órgão físico) ou a mente (espírito)? Os espíritos permanecem entre os encarnados, ou se reintegram ao fluido universal? A matéria é uma forma transitória de energia, ou não? Tudo é energia, ou não? O tempo é relativo, ou é apenas uma convenção? As emoções têm base química, ou não? Há vida em outros planetas, ou não?
Minha mente flutua ora na direção da certeza, ora na direção da dúvida.
Todavia, existe uma questão ainda mais complexa que exige seriedade no seu tratamento.
Dia desses, ao afirmar que, honestamente, eu não conseguia compreender a questão da existência (ou não) de Deus, fui acusado de ateu. Protestei, pois me considero apenas um livre pensador, cujo cérebro limitado não alcança essa clareza acerca de algo tão complexo, digamos, fenômeno transcendente.
Poderia afirmar, com outras palavras, que eu não fui tocado pela graça de acreditar, de ter Fé.
Para julgamento do leitor, vou tentar definir os dois conceitos.
Ateu é aquele que se opõe terminantemente à idéia de Deus, seja qual for o nome ou aspecto sob o qual ele apareça. Ateísmo é apenas o nome que se dá ao estado de ausência de teísmo. (Ver História do Ateísmo – George Minois. São Paulo: Ed. Unesp, 1946)
O agnóstico, por sua vez, não se opõe propriamente a Deus, mas, sim, declara a (im) possibilidade de a razão humana conhecer tal entidade (gnose, palavra grega, significa «conhecimento»).
Os agnósticos achamos que, assim como não é possível provar racionalmente a existência de Deus, é igualmente impossível provar a sua inexistência, logo, constituindo um labirinto sem saída a questão da existência de Deus. Agnóstico é quem acredita não ser possível conhecer a Verdade sobre determinada questão ou fenômeno.
Por outro lado, há quem conjecture, frente à situação de miséria e violência crescente no mundo atual, que o século XX foi o século da morte de Deus. A religiosidade, todavia, continua viva em todas as sociedades. Como explicar a permanência histórica de religiões milenares?
Por sua vez, a Ciência positivista, da Mecânica euclidiana, fundada no Empirismo, desprendeu-se definitivamente de qualquer apelo ao sobrenatural, separando-se das crenças. Pergunto:
O que é Deus? Provavelmente, não seria um ser humano, uma pessoa, pois estaria presente em toda a imensidão do Universo, com bilhões de galáxias. Impossível para nossa limitada capacidade de deslocamento.
A mais atualizada posição sobre esta complexidade é apresentada pelas descobertas da Física Quântica, porquanto nos leva ao surpreendente mundo das nanopartículas, subatômicas, no qual os fenômenos ocorrem sob o conceito da não-localização e apenas quando são buscados pelo pesquisador. Ou seja, podem estar em qualquer parte e só se manifestam quando são procurados. Nessa direção, cientistas já encontraram uma partícula existente em todo o Universo, o bóson de Higgs, mais conhecido por partícula de Deus.
Deus seria uma inteligência universal composta e sustentada por energia quântica? Presente em todos os fenômenos, mas somente se manifesta quando é procurado? Seria a unificação da Ciência com a Religião?
Nossa existência parece um grande mistério insondável. Prefiro admitir minha incapacidade de compreender, a abraçar uma hipótese infundada ante este grande ponto de interrogação que é a vida.
Sejamos honestos: somos seres complexos, maravilhosos, capazes de empreendimentos notáveis, mas também bastante limitados, e não temos todas as respostas ao nosso alcance – pelo menos ainda não.
Relembro que, segundo o texto bíblico, à frente de Pôncio Pilatos, Jesus silenciou quando aquele lhe perguntou: o que é a Verdade? Se até Jesus calou, quem sou eu para afirmar que compreendo algo tão grandioso? Acho que estou em boa companhia. Fica o leitor com a tarefa de concluir essa reflexão.

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SILÊNCIO DO DELATOR – Crônica de Rinaldo Barros

amanhecer
“Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado”. (Albert Einstein)
Correndo o risco de não ser compreendido nestes tempos pós-modernos, no qual tudo é descartável e efêmero, vou falar de alguns fatos históricos que marcaram uma geração; coisas permanentes. Escrevo com saudades, atiçadas pela releitura do texto fácil de José Nêumane Pinto, em seu livro antológico “O Silêncio do delator”. São Paulo: A Girafa Editora, 2004.
O livro fala dos anos inesquecíveis, indeléveis, da década de 1960: quando Paris era uma festa para a resistência política às ditaduras e os movimentos sociais arrastavam multidões. Em que uma nova linguagem expressava o descontentamento e a indignação, em que as superpotências ensaiavam um confronto nuclear, surgia uma vanguarda no cinema, na arquitetura, na música, na literatura, no teatro e nas artes plásticas. Uma inspirada geração de criadores, pensadores, filósofos e intelectuais, desafiava os cânones e se impulsionava para abalar as estruturas estéticas, políticas, conceituais e morais.
Tempo em que eu achava que os sonhos se tornariam realidade, e sonhava mudar o mundo.
Era o tempo da Guerra Fria, motivada pelo auge do socialismo, com o Vietnã e Cuba impondo dura humilhação aos Estados Unidos. A música de protesto em marcha, os Beatles empunhando a bandeira do pacifismo, 1968 na França e no Brasil, Woodstock e a liberdade de expressão, o culto ao prazer e às drogas e as palavras de ordem do “faça amor, não faça guerra”.
Cultuavam-se o cinema de Fellini, Truffau, Godard, Glauber Rocha e Buñuel, o teatro de Nelson Rodrigues e Augusto Boal, os grandes festivais de música e a crença na revolução armada, em Che, Fidel e outros camaradas. O homem invade a lua, a bossa nova traz um novo alento à música brasileira; o AI-5, um balde d’água na liberdade e nas garantias individuais; a censura recrudesce, o mundo em ebulição, o existencialismo em moda, filosofias vicejando em todo o canto, o mundo acreditando numa saída.
Os ingredientes desses anos de rebeldia, insubmissão e efervescência estão mapeados no livro de Nêumane, um romance testamentário de quem viveu os legendários últimos anos de um século em agonia e desencanto, época de veloz escalonamento de valores, mudança de comportamentos, debates ideológicos e implosão das velhas estruturas de pensamento.
Nêumane saiu-se bem ao fazer o balanço crítico de uma geração, sem cair no lugar-comum, evitando o panfletismo ou o viés sentimental, tão comuns em textos que visam resgatar a história a partir da vivência de quem as conta. Trata-se de um registro sincero sobre um tempo que não se reproduzirá, um tempo em que a consciência se aliava a uma causa e se sabia por que empunhar bandeiras e gritar bem alto, algo de que carecem os que hoje tentam levantar a batuta para comandar a orquestra da história atual.
O Silêncio do delator é um formidável referencial para os que querem compreender a recente história do Brasil e do mundo. Uma obra que nos fala do enterro das utopias, a decrepitude dos sonhos, o fim das ilusões e o estabelecimento de uma nova ordem, impondo o reinado do alheamento e da passividade, no qual o mercado é o grande deus, com seu pragmatismo e seus fundamentalistas econômicos em busca do lucro máximo, o que afasta de nós qualquer possibilidade de retorno às utopias.
Para quem foi testemunha ocular dessa paixão, como fui, bateu uma nostalgia das grandes.
E a certeza de que está se encerrando um ciclo da história política brasileira. E de que estamos assistindo ao fim melancólico das “esquerdas”, no Brasil.
A ilusão do poder as matou, com o pior veneno: a corrupção!
O pior de tudo é saber que não fomos capazes de encontrar a Estrela da Manhã.
É o funeral das utopias!

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AINDA TENHO UM SONHO – Crônica de Rinaldo Barros

SONHOS E VENTOS
“Lutar contra tudo o que ofenda a dignidade humana é obrigação de todos nós. Sem sonhar, nada acontece”. (Oscar Niemayer)
Quando eu era jovem acreditava que os sonhos se tornavam realidade. Agora, continuo procurando a Estrela da Manhã, mas o céu está carregado de nuvens escuras, como se estivéssemos numa viagem sem destino e sem mapa. Parece que a realidade está invertida, como se fora fantasia ou imaginação.
Após queimar parte da massa cinzenta, creio que estou quase encontrando a trilha para tentar entender o teatro político atual, cujo elenco principal encontra-se em Brasília.
É possível encontrar subsídios para entender esse fenômeno no livro “O Pós-Modernismo” de Ana Mae Barbosa e Jacó Guinsburg, publicado pela Editora Perspectiva. Talvez encontremos ali luzes para compreender o mensalão e a lava-jato.
A cartilha pós-modernista afirma que tudo é permitido, nada é proibido, inclusive chafurdar na realidade, seja ela política, social, econômica ou cultural, individual ou coletiva, praticando todo o tipo de mestiçagem libertina ou libertária. “Tudo é descartável e inútil”, afirmam os pós-modernos. Agora, já se fala até em “pós-verdade”, esta – sim – é quem dita hoje as tendências e as opiniões de todos nós. Será?
Até porque quem governa não está no poder, e o poder real não está no governo. No patropi é assim.
O “bandido” desconstruiu o “herói sem caráter”, num espetáculo extraordinário. Diariamente, assistimos à verdade da mentira. Em outras palavras, por motivos estranhos, a mentira acabou-se revelando ser a verdade. E cada um forma a sua opinião instantânea, volátil.
Nessa realidade fantástica, em ninguém existe a preocupação se é verdadeiro ou falso o que se afirma. Trabalha-se com a verossimilhança (de verossímil), aquilo que parece ou pode vir a ser verdade.
Verdades ou mentiras já não significam mais nada, nem interessa ao telespectador nem ao internauta. O que importa e hipnotiza é o espetáculo em si, não a verdade.
Percebo um descolamento da realidade que não se confunde com o cultivo de utopias, o qual – antigamente – fazia parte da atividade política, quando ainda “ardia em mim o fogo ingênuo da paixão”.
Hoje, restou apenas um imenso delírio coletivo, no qual o consumismo e o endividamento das famílias são considerados como o surgimento de uma “nova classe média”. Sem qualquer contestação.
Ou seja, encena-se o tempo todo e, assim como na arte pós-moderna, só interessa o que chega à mídia ou ao Facebook. Para completar o entendimento, o valor dominante hoje no patropi, na sociedade sob a hegemonia do deus-mercado, pode ser traduzido por uma palavra: dinheiro.
Por ele, pode-se tudo: negociar a Dignidade, o corpo, a mente, a Liberdade. Em nome do dinheiro, tudo se transforma em mercadoria: os ideais, as crenças, as esperanças, o futuro das novas gerações, tudo.
Tempo da corrupção generalizada, da venalidade, da banalização da vida, da lassidão moral; o tempo em que qualquer coisa, moral ou física, é levada ao mercado para ser apreciado por seu valor ou preço, reforçando o individualismo do “salve-se quem puder”.
É a Lei do “deve-se levar vantagem em tudo”.
A mídia e as redes sociais também trabalham com a verossimilhança. Daí as notícias ligadas ao espetáculo correrem como rastilho de pólvora. Aumentam a audiência e a venda de anúncios, aumentam o lucro. E são esquecidas na mesma velocidade. A amnésia coletiva virou epidemia.
Pergunto: será que já não está mais do que na hora de quebrar o silêncio e fazer escolhas; de mostrar que o rei e a rainha estão nus, de resgatar a ética na política, atuar claramente em defesa dos trabalhadores, das crianças, dos jovens, das mulheres, dos negros, dos excluídos, dos oprimidos em geral e das instituições republicanas, sem as quais não há perspectivas de desenvolvimento civilizatório?
Será que não é preciso e urgente desarquivar as “velhas” ideias que animaram o Iluminismo?
Lembram? Liberdade, Igualdade e Fraternidade foram lemas do nascimento da sociedade moderna. Parece que os esquecemos, ao nos desviar do papel de cidadãos para o de consumidores.
Ainda tenho um sonho. Oxalá, e esse é o maior dos oxalás, esta crise seja sinônimo de oportunidade.

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