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Leia a Obra

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A MORTE, EM RÁPIDAS PINCELADAS – Crônica de Rinaldo Barros

Morte
“No final, descobrimos que a única condição para a vida existir é a morte” (José Saramago)
É bom prestar atenção a este assunto. Porque o que ele diz tem tudo a ver com o destino de cem por cento dos seres humanos: a morte.
Não é recomendável fazer de conta que o assunto não é fascinante. Porque é.
Não adianta chamar o assunto de “mórbido”, “deprimente”, “lastimoso”, “incômodo”, “desagradável”.
É bobagem recorrer a este velho arsenal de adjetivos, porque eles, no final das contas, servem apenas como desculpa para que não se encare um fato: um dia, o planeta seguirá existindo sem nossa presença física.
A ideia de morte faz que com tudo passe a valer a pena. E torna tudo impossível, também. É, portanto, um dos mais fascinantes temas da vida sobre o planeta Terra, de nossas vidas!
Uma das coisas que devemos lembrar é que a porcentagem de pessoas que morrem é de cem por cento! Todo mundo vai morrer um dia. A medicina tenta nos afastar da morte, mas não funciona. Porque todos nós temos de morrer.
Tenho medo da extinção, sim. Isso me preocupa. Mas, biologicamente, materialmente, sei que não existe escolha. Tenho também medo de morrer nas mãos de um médico que não saiba como cuidar de mim. Ou seja: um médico que continue tirando raios-x e tomografias, em vez de me consolar e me dar analgésicos.
Há duas maneiras de pensar na morte. Você pode pensar na morte o tempo todo, o que é uma bobagem. Também pode não pensar nunca, o que é igualmente estúpido.
É difícil encontrar um meio termo.
Mas, quando a gente envelhece, estatisticamente passa a ficar mais próximo da morte do que quando tínhamos quinze anos, por exemplo.
A morte é, portanto, uma daquelas condições que não podemos imaginar. Podemos, por exemplo, olhar para a noite passada. Ali, estávamos “mortos”. Porque estar dormindo sem sonhar é como estar morto. É o que todo mundo faz toda noite. Não é nada de grandioso. Mas o medo de uma situação irrecuperável – o “não-ser” – é uma das piores coisas sobre as quais temos de pensar. Porque não podemos imaginar o Universo sem nós. Temos a pretensão (?) de que somos o centro, que tudo o mais existe apenas para nos homenagear ou abrilhantar nossas vidas.
É impossível contemplar o nada, o “não-ser”. Mas, de repente, penso nos milhões, bilhões, de anos em que ainda não éramos nascidos. O fato de não termos existido antes não é um problema para nenhum de nós. Qualquer criança pode entender! É algo que não incomoda a ninguém. Mas aí nós nascemos, vivemos por setenta, oitenta, anos – por exemplo – e morremos. Por milhões de anos adiante, estaremos mortos. O fato de que estaremos mortos por milhões de anos adiante nos incomoda!
É engraçado este incômodo, porque não faz sentido. Creio que este incômodo acontece porque, neste caso, estamos falando de nossa própria morte, algo que não podemos imaginar.
Aliás, Saramago nos ensina que somente duas coisas podem enganar a morte: a música e o amor.
A religião costuma oferecer consolo para as dificuldades da vida, e recompensa, no fim, para os fiéis. Mas, ela dá à vida humana uma noção de contexto e, portanto, de seriedade.
Ela faz as pessoas se comportarem melhor? Às vezes sim; às vezes não; fiéis e infiéis têm sido igualmente criativos e maus. A religião cumpre um importante papel social. A religiosidade é universal.
Mas, ela é verdadeira ou se trata apenas de uma sublime ficção necessária?
Segundo Julian Barnes, talvez a divisão da humanidade não seja entre religiosos e não-religiosos, mas entre os que temem a morte e aqueles que não a temem: os que creem que o espírito não morre, que a alma é preexistente ao corpo físico, os que creem na reencarnação.
São os adeptos de uma doutrina filosófica que reúne Ciência e Religião: espiritismo.
Ensina Barnes que, “então, caímos em quatro categorias, e esclareço quais as duas que eu considero superiores: os que não temem a morte porque têm fé e os que não temem a morte apesar de não terem fé. Estes, a meu ver, estão no mais alto plano da moral. Em terceiro lugar, vêm aqueles que, apesar de terem fé, não conseguem se livrar do medo antigo, visceral, racional. E, finalmente, fora do quadro das medalhas, abaixo da média, vêm aqueles que temem a morte e não têm fé”.
Resumo da ópera: não podemos saborear realmente a vida sem a consciência de sua extinção.
Para aprender a brincar com a morte, recomendo: “As Intermitências da Morte”, de José Saramago, Companhia das Letras, 2005.

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.com