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A VIDA É FEITA DE ESCOLHAS – Crônica de Rinaldo Barros

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“Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay” (Miguel de Cervantes in “Dom Quixote”)
O período carnavalesco, para minha pessoa, serviu para – entre outras coisas – refletir sobre o atual contexto surrealista aqui no patropi.
Não sei porque, lembrei de uma frase dita espontaneamente por um jornalista amigo meu quando, num tresloucado gesto cometido há alguns anos, aceitou assumir o cargo de Chefe da Casa Civil do governo do Rio Grande do Norte.
Um dia liguei para o amigo em tela, dizendo que precisava falar urgente com ele para tratar de uma questão burocrática. Ao adentrar o seu Gabinete, ouvi um desabafo surpreendente: “Foi o Cão…quem inventou este cargo”, explodiu meu amigo jornalista, visivelmente incomodado com a situação / postura de autoridade Chefe de todos os demais secretários.
Não precisou explicar. Entendi de prima que se tratava do surrealismo absurdo da função que estava exercendo, enfrentando questões históricas sem solução e com orçamento fictício para suprir problemas reais crescentes; um misto de corrida contra o tempo com a ilusão do poder.
Um salto, de guarda-sol aberto, no pátio da loucura.
Pois bem, guardada a devida distância entre os fatos, o site Congresso em Foco trouxe um levantamento sobre a “maldição” que persegue já nove ministros da Casa Civil do Governo Federal. No caso federal, todos os amaldiçoados estão envolvidos com o processo de corrupção endêmico que assola nossa nação. De Dirceu a Padilha.
Cobiçada pelos políticos por causa de seus superpoderes, a Casa Civil virou sinônimo de problema político e criminal neste início de século. Todos os nove titulares que a comandaram desde 2003 enfrentam complicações na Justiça.
Um roteiro que se repete desde a queda de José Dirceu (PT), em 2005, no auge das revelações do mensalão. Quem não caiu por denúncias no período em que chefiou a casa, a exemplo da ex-presidente Dilma Rousseff, enrolou-se depois. Os ex-ministros sofrem com processos, condenações e até prisões. É a “maldição” da Casa Civil, que persegue Dirceu, Dilma, Erenice Guerra, Antônio Palocci, Gleisi Hoffmann, Aloizio Mercadante, Jaques Wagner, Lula e, agora, Eliseu Padilha.
A maldição alcança até o ato de posse no cargo.
Lula nem sequer chegou a assumir de fato. Assinou termo de posse e foi barrado no dia seguinte pelo Supremo Tribunal Federal, que o acusou de manobrar para escapar do juiz Sérgio Moro na Lava Jato. Hoje é réu em cinco processos.
Divulgação de conversa telefônica entre Lula e Dilma foi utilizada como argumento por Gilmar Mendes para suspender a nomeação do ex-presidente. Segundo o ministro do STF, intenção era fugir do juiz federal Moro. O ex-presidente afirma ser vítima de perseguição política.
Gleisi, atual líder do PT no Senado, também virou ré no Supremo. Mercadante e Wagner são alvos de inquérito da operação. Padilha se encaminha para ser mais um chefe da Casa Civil na relação dos investigados por suspeitas de envolvimento com o esquema da Petrobras.
Amigo e homem de confiança do presidente, o atual chefe da Casa Civil foi um dos articuladores do impeachment de Dilma, a quem serviu na Secretaria de Aviação Civil até dezembro de 2015. Na linha de tiro da Lava Jato, sente agora os efeitos da “maldição” do cargo.
Aposta de Dilma para substituí-la na Casa Civil, Erenice permaneceu apenas seis meses no cargo. Saiu após denúncia de tráfico de influência, que lhe renderia mais tarde voto de censura na Comissão de Ética. Também está na mira da Lava Jato.
Zé Dirceu, o mais poderoso dos ministros de Lula, em seus primeiros anos de mandato presidencial, sucumbiu com o mensalão. Quando já cumpria a prisão em regime domiciliar, foi pego na Lava Jato. A última condenação é de 20 anos de reclusão.
“A Lava Jato sobrevoa os campos do poder tal como uma ave gigante ameaçadora. Os voos estão cada vez mais rasantes”. Mas, o foco na Casa Civil dá o que pensar.
Será maldição? Ou, simplesmente, fizeram as escolhas erradas?

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FRONTEIRA DO PÂNICO – Crônica de Rinaldo Barros

Pânico violência
“Dito e feito. Tudo foi dito, e nada foi feito”. (Millor Fernandes)
Não estou certo se os responsáveis atuais pelos destinos do patropi – incluindo meus colegas da universidade, como os cientistas políticos – estão se dando conta completamente das implicações e das consequências do retorno da violência na vida pública brasileira.
Por outro lado, segundo Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, “Nossa Constituição não diz o que é segurança pública, nenhuma lei diz que segurança pública é proteger a população ou investigar criminoso, só diz por quem a segurança vai ser exercida”.
As nossas polícias ainda estão reguladas por outro conceito de segurança (ultrapassado), que é a manutenção de um modelo de ordem pública, de uma situação em que o Brasil teria um inimigo interno. A lógica é que o tráfico é o inimigo a ser combatido; e deixamos de lado questões ligadas à preservação da vida.
A presença do medo da violência, dentro de uma sociedade, tem profundo impacto sobre a vida social, cultural, econômica e política de um país. Sem falar nos interesses lucrativos de algumas empresas produtoras e distribuidoras de equipamentos de segurança, e de muitos veículos de comunicação. Medo dá lucro.
Como bem lembrou o deputado federal pelo PSDB-MG, Marcus Pestana: “uma das faces dramáticas da crise brasileira é a que veio à tona nas semanas iniciais de 2017, envolvendo a segurança pública e o sistema prisional. De um lado, um verdadeiro filme de terror assistido por toda a população pela TV, em que facções criminosas organizadas nacionalmente demonstraram um nível surpreendente de atuação e apresentaram ao país um mundo paralelo, regido por regras próprias, à margem da ordem constitucional e das instituições republicanas”.
O contexto que propiciou essa verdadeira tragédia foi alimentado por nossa obsoleta ordem penal, em que contraventores de baixa periculosidade se misturam com assassinos e grandes traficantes, criando uma verdadeira “universidade do crime”. Também os baixos níveis de investimento no sistema prisional levaram a uma situação insustentável. A população carcerária é hoje, no Brasil, de 622.202 detentos. Mas as vagas disponíveis são apenas 371.884. Desafiando a lei da Física, segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço; transformando os presídios em paióis de pólvora nas mãos das facções criminosas.
Por outro lado, não haverá vencedores no confronto absurdo entre governantes e servidores policiais, militares e civis. Segurança pública é um direito universal (a sociedade tem de se sentir protegida), garantido no artigo 6º da Constituição Federal de 1988, e definido no artigo 144, como dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, exercido para a preservação da ordem pública, com proteção às pessoas e ao patrimônio privado ou público.
Não parece nada razoável que policiais sequestrem esse direito da sociedade em busca de melhores salários. O leitor há de convir que serviços essenciais não devem ter direito a greve porque em sua ausência impera o caos, refletido nas imagens terríveis a que assistimos no Espírito Santo.
Mas também não é nada razoável que morra um policial a cada dois dias no Rio de Janeiro, como se estivéssemos numa verdadeira guerra civil. O diálogo e o respeito mútuo têm que ser a premissa.
As raízes da crise são muitas: a lógica infernal da burocracia; o estrangulamento orçamentário que limita os investimentos; as aposentadorias precoces e dificuldade de reposição dos efetivos; as falhas na política de combate às drogas e ao crime organizado; a peneira furada em que se transformaram nossas fronteiras; e o fracasso na prevenção que deveria vir do sistema educacional e das políticas voltadas para crianças e jovens em situação de risco social.
Há um efeito acumulado de experiências negativas; isso se soma a condições ambientais que estimulam o medo, tais como: o abandono de regiões periféricas das cidades, desemprego de milhões de pessoas, consumo e venda de drogas e álcool em vias públicas, iluminação pública deficiente, prédios abandonados, veículos abandonados em vias públicas, entre outros. Todos são sinais da ausência de um poder público presente e eficaz, que, certamente, favorece a manutenção do medo generalizado.
O medo, com a sensação de ausência de um poder público capaz de prover segurança coletiva, combinado com a impotência dos cidadãos para exercer controle sobre as autoridades, estimula a adoção de estratégias individuais para “diminuir o risco” de serem vítimas da violência.
Receio que a população brasileira esteja na fronteira do pânico.

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A MORTE, EM RÁPIDAS PINCELADAS – Crônica de Rinaldo Barros

Morte
“No final, descobrimos que a única condição para a vida existir é a morte” (José Saramago)
É bom prestar atenção a este assunto. Porque o que ele diz tem tudo a ver com o destino de cem por cento dos seres humanos: a morte.
Não é recomendável fazer de conta que o assunto não é fascinante. Porque é.
Não adianta chamar o assunto de “mórbido”, “deprimente”, “lastimoso”, “incômodo”, “desagradável”.
É bobagem recorrer a este velho arsenal de adjetivos, porque eles, no final das contas, servem apenas como desculpa para que não se encare um fato: um dia, o planeta seguirá existindo sem nossa presença física.
A ideia de morte faz que com tudo passe a valer a pena. E torna tudo impossível, também. É, portanto, um dos mais fascinantes temas da vida sobre o planeta Terra, de nossas vidas!
Uma das coisas que devemos lembrar é que a porcentagem de pessoas que morrem é de cem por cento! Todo mundo vai morrer um dia. A medicina tenta nos afastar da morte, mas não funciona. Porque todos nós temos de morrer.
Tenho medo da extinção, sim. Isso me preocupa. Mas, biologicamente, materialmente, sei que não existe escolha. Tenho também medo de morrer nas mãos de um médico que não saiba como cuidar de mim. Ou seja: um médico que continue tirando raios-x e tomografias, em vez de me consolar e me dar analgésicos.
Há duas maneiras de pensar na morte. Você pode pensar na morte o tempo todo, o que é uma bobagem. Também pode não pensar nunca, o que é igualmente estúpido.
É difícil encontrar um meio termo.
Mas, quando a gente envelhece, estatisticamente passa a ficar mais próximo da morte do que quando tínhamos quinze anos, por exemplo.
A morte é, portanto, uma daquelas condições que não podemos imaginar. Podemos, por exemplo, olhar para a noite passada. Ali, estávamos “mortos”. Porque estar dormindo sem sonhar é como estar morto. É o que todo mundo faz toda noite. Não é nada de grandioso. Mas o medo de uma situação irrecuperável – o “não-ser” – é uma das piores coisas sobre as quais temos de pensar. Porque não podemos imaginar o Universo sem nós. Temos a pretensão (?) de que somos o centro, que tudo o mais existe apenas para nos homenagear ou abrilhantar nossas vidas.
É impossível contemplar o nada, o “não-ser”. Mas, de repente, penso nos milhões, bilhões, de anos em que ainda não éramos nascidos. O fato de não termos existido antes não é um problema para nenhum de nós. Qualquer criança pode entender! É algo que não incomoda a ninguém. Mas aí nós nascemos, vivemos por setenta, oitenta, anos – por exemplo – e morremos. Por milhões de anos adiante, estaremos mortos. O fato de que estaremos mortos por milhões de anos adiante nos incomoda!
É engraçado este incômodo, porque não faz sentido. Creio que este incômodo acontece porque, neste caso, estamos falando de nossa própria morte, algo que não podemos imaginar.
Aliás, Saramago nos ensina que somente duas coisas podem enganar a morte: a música e o amor.
A religião costuma oferecer consolo para as dificuldades da vida, e recompensa, no fim, para os fiéis. Mas, ela dá à vida humana uma noção de contexto e, portanto, de seriedade.
Ela faz as pessoas se comportarem melhor? Às vezes sim; às vezes não; fiéis e infiéis têm sido igualmente criativos e maus. A religião cumpre um importante papel social. A religiosidade é universal.
Mas, ela é verdadeira ou se trata apenas de uma sublime ficção necessária?
Segundo Julian Barnes, talvez a divisão da humanidade não seja entre religiosos e não-religiosos, mas entre os que temem a morte e aqueles que não a temem: os que creem que o espírito não morre, que a alma é preexistente ao corpo físico, os que creem na reencarnação.
São os adeptos de uma doutrina filosófica que reúne Ciência e Religião: espiritismo.
Ensina Barnes que, “então, caímos em quatro categorias, e esclareço quais as duas que eu considero superiores: os que não temem a morte porque têm fé e os que não temem a morte apesar de não terem fé. Estes, a meu ver, estão no mais alto plano da moral. Em terceiro lugar, vêm aqueles que, apesar de terem fé, não conseguem se livrar do medo antigo, visceral, racional. E, finalmente, fora do quadro das medalhas, abaixo da média, vêm aqueles que temem a morte e não têm fé”.
Resumo da ópera: não podemos saborear realmente a vida sem a consciência de sua extinção.
Para aprender a brincar com a morte, recomendo: “As Intermitências da Morte”, de José Saramago, Companhia das Letras, 2005.

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ENTRE A INSEGURANÇA E A ESPERANÇA – Crônica de Rinaldo Barros

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A conversa de hoje segue no rumo inspirador do pensamento do mestre Zigmunt Bauman, o qual homenageei em texto anterior como sendo “O Homem que decifrou nosso tempo”.
Pois muito bem, Mestre. Você acertou na mosca destacando a presente crise, que afeta todos os aspectos da nossa condição de vida neste planeta.
Todavia, ensinou o pensador britânico Thomas Paine (1737 a 1809), em seu famoso livro “Senso Comum” que “quando sofremos, ou somos expostos por um governo às mesmas misérias que poderíamos esperar de um país sem governo, nossa calamidade é ampliada pela reflexão de que nós mesmos suprimos os meios pelos quais sofremos”.
O caro leitor há de convir que, sendo a segurança, em nosso atual contexto, o principal propósito e objetivo de um governo, decorre que qualquer forma de governo que nos pareça mais capaz de garanti-la, com um mínimo de aventura e o máximo de benefício socioeconômico, é preferível a todas as demais.
Debrucemo-nos sobre a nossa dura realidade:
No Brasil, mais de 50 mil pessoas são assassinadas por ano – isso já acontece há vários anos.
Quase todas as vítimas da violência urbana são jovens negros, pobres, moradores de favelas e de periferias urbanas de cidades brasileiras. Os meninos pobres são vistos como se fossem criminosos.
E é preciso dizer que nunca foram suficientes os investimentos realizados em Segurança no Brasil.
Ainda por cima, foram investimentos aplicados basicamente em viaturas, armas e equipamentos; esquecendo o capital humano, principal esteio de qualquer instituição. Vivenciamos, há décadas, a ideologia da “viaturização” das polícias.
Além disso, as forças de Segurança, principalmente as polícias, ainda não passaram por um processo profundo de democratização, de modernização. Continuam apartadas do povo.
Por outro lado, vivemos uma hiperconectividade, através das redes sociais, que nos passa a impressão (falsa) de ativismo e participação política, mas que é apenas “curtição” e desencargo de consciência.
Sabemos que a criminalidade tem ligações com o nosso problema social, cuja causa principal é a ausência do Estado em quase todos os aspectos da vida dos segmentos mais pobres da população.
É quase inexplicável o descaso que faz com que os governos invistam tão pouco em Segurança e na educação pública, agricultura; energias renováveis; inclusão sócio produtiva; meio ambiente; segurança alimentar e nutricional, na vida do nosso povo. O Estado brasileiro ainda é ausente para a maioria da população.
A sociedade civil organizada não consegue mais aceitar essa situação, herdada de erros históricos cometidos pelo Estado em negar os Direitos Constitucionais de cada cidadão de bem.
Hoje, em pleno regime democrático, no Brasil, ainda se prepara a polícia como se fôssemos para uma guerra, para o combate ao crime.
Esquecem-se os interesses do povo – que só quer viver, trabalhar, estudar e ser feliz.
Ao policial foi confiado, pela sociedade e pelo Estado, o papel da Segurança pública; como se a sociedade não fosse corresponsável. Ou seja, historicamente, a Segurança pública, tem-se resumido ao combate à criminalidade. Uma desinteligência sistêmica, porquanto violência gera violência.
Resultado: já vivemos em plena guerra civil sem quartel; com o crime se modernizando mais rapidamente do que o Estado.
Os chefes do crime organizado não estão nas favelas. Estão nos jatinhos voando para Miami, são poliglotas bem informados e muito articulados.
A polícia deve continuar com viaturas, armas e equipamentos de comunicação modernos. Todavia, tendo como premissa que prevenir é melhor e mais barato. Com a polícia perto do povo, com o policial inteligente, investigando, pesquisando, conquistando a confiança das pessoas comuns, em convivência cotidiana; quase como se fossem líderes populares, representando a presença do Estado, um canal aberto para os bens da cidadania. Em resumo, deve-se usar a inteligência “lato sensu”.
Como, no patropi, a própria Democracia está sob ataque – e esta é a grande questão em jogo – devemos indagar se ela é ainda capaz de pensar sobre si mesma, de se repensar e recuperar o poder de governar de fato.
Assustadoramente, estamos no meio de um tecido movediço, entre a Insegurança e a Esperança.

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O HOMEM QUE DECIFROU NOSSO TEMPO – Crônica de Rinaldo Barros

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O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman morreu nesta segunda-feira, 9 de janeiro de 2017, aos 91 anos. Ele vivia em Leeds, na Inglaterra, há décadas, e foi o criador do conceito “modernidade líquida”.
Bauman foi um dos intelectuais-chave do século 20 e se manteve ativo até os seus últimos dias. De acordo com uma amiga da família e professora de filosofia em Varsóvia, Bauman morreu em casa, cercado pela família. Uma bênção concedida a quem tem merecimento.
Sua obra, que inclui mais de 50 livros e ganhou proeminência nos anos 1960, foi reconhecida com diversos prêmios, entre eles o Príncipe de Astúrias de comunicação e humanidades, em 2010.
Zygmunt Bauman presenciou os principais acontecimentos do século 20 e na virada do milênio criou uma teoria — a liquidez do nosso tempo — que levaria seu nome para além do campo da sociologia e o tornaria um escritor best-seller.
Seus trabalhos também exploram a fragilidade das conexões humanas nos tempos modernos e a insegurança gerada por um mundo em constante transformação.
Bauman nasceu na Polônia em 1925.
Veja abaixo alguns dos seus inúmeros livros:

44 CARTAS DO MUNDO LÍQUIDO
Como separar o que é importante e significativo do que é supérfluo e descartável? Essa foi a intenção do sociólogo Zygmunt Bauman ao ser convidado pela revista italiana La Repubblica delle Donne a escrever cartas comentando aspectos do que o sociólogo chama de ‘mundo líquido moderno’. Surpreende a capacidade do sociólogo em descobrir significados sob atos aparentemente simples – uma chamada ao celular, a exposição de uma foto no Facebook, um outdoor, entre outros. Todos esses fatos que parecem casuais e desconectados se unem para reforçar a aflição do homem no mundo líquido: buscar identidade.
A CULTURA NO MUNDO LÍQUIDO MODERNO
Em nossa era líquido-moderna, na qual todas as hierarquias se dissolvem e os indivíduos passam de produtores a consumidores, a cultura já não é humana, mas de grupos, de guetos, e a agenda contemporânea põe na ordem do dia temas como cidadania, direitos humanos e convivência. Contudo – alerta-nos Bauman -, mais que lutar pelos direitos da diferença, deveríamos nos empenhar pelo direito à igualdade.
CEGUEIRA MORAL
O mal não está restrito às guerras ou às circunstâncias nas quais pessoas atuam sob condições de coerção extrema. Hoje ele se revela com frequência na insensibilidade diária diante do sofrimento do outro, na incapacidade ou recusa de compreendê-lo e no desejo de controlar a privacidade alheia. A maldade e a miopia ética se ocultam naquilo que consideramos comum e banal na vida cotidiana. Em um mundo em que se você não está nas redes sociais, não está em lugar nenhum, novas formas de censura correm soltas nas demonstrações de ódio via internet.
GLOBALIZAÇÃO – AS CONSEQUÊNCIAS HUMANAS
Sem oferecer todas as respostas sobre o tema, o sociólogo polonês mostra nesta detalhada história da globalização as raízes e as consequências deste processo, tentando dispersar um pouco da névoa e da banalização que cercam o termo ‘globalização’. Numa análise instigante, Bauman convida os leitores a uma reflexão sobre os efeitos da globalização – premissa supostamente inquestionável a respeito do nosso modo de vida – na política, na economia, nas estruturas sociais e até em nossas percepções de tempo e espaço.

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ASSIM COMO A HISTÓRIA, O NATAL É UMA FARSA – Crônica de Rinaldo Barros

verdade3“O grande oceano da verdade permanece completamente por descobrir à minha frente”. (Isaac Newton)
Prepare o seu coração, e para mudar tudo o que você aprendeu na escola sobre as origens da nossa história. Segundo fontes credenciadas, nem foi Cabral quem descobriu o Brasil, nem foi Colombo quem descobriu a América, nem o menino Jesus nasceu no dia do Natal. Vamos começar pelo que há de verdade nas circunstâncias do descobrimento do Brasil.
Naquele tempo, manter segredo sobre os descobrimentos no Novo Mundo era questão de Estado para a coroa portuguesa. Os diários de bordo eram trancados a sete chaves, e quem ousasse revelar seu conteúdo era condenado à morte.
Pois bem. Em uma dessas missões secretas, o cosmógrafo e navegante Duarte Pacheco Pereira teria chegado por aqui em 1498. Cabral teria vindo depois apenas tomar posse oficial, e fazer estardalhaço sobre a descoberta. O feito encontra-se registrado no Tratado dos Novos Lugares da Terra, de autoria do próprio Pacheco e publicado somente em 1882. Tudo confirmado pelo historiador português Jorge Couto, em seu livro A Construção do Brasil, publicado em 1995.
Registre-se também que, para o escritor potiguar Câmara Cascudo, o Brasil foi descoberto em Touros (RN), e não em Porto Seguro (BA). Suas pesquisas e estudos comprovam que a posse e a propriedade do Brasil se deram na praia de Touros, a 145km de Natal. O Marco é o mais antigo objeto de presença europeia em continente americano. Segundo Cascudo, foi colocado na praia de Touros por Américo Vespúcio.
Existem também alguns escritos que comprovam a presença anterior do italiano Américo Vespúcio, e dos espanhóis Yanez Pinzon e Diego de Lepe. Sem falar nos chineses, por volta de 1421…
Por outro lado, o caro leitor já deve ter percebido que o nosso continente tem o nome de América, e não de Columbia. Claro, homenageia-se a Vespúcio, o verdadeiro descobridor do Novo Mundo. Vespúcio dá a entender, em seu Novus Mundus, que esteve por aqui em junho de 1499, no litoral do Maranhão.
Colombo jurou até o fim da vida que havia chegado à China ou à Índia, e essa teimosia arruinou sua carreira; somente tendo sido reabilitado, em 1866, quando americanos de origem italiana inventaram o Columbus Day: um truque ideológico dos imigrantes italianos, com o objetivo de obterem o reconhecimento como cidadãos estadunidenses.
Temos ainda a comprovação documental de que os navegadores espanhóis Yanez Pinzon e Diego Lepe foram condecorados pelo rei da Espanha, por terem “descoberto o Brasil”, em janeiro de 1500.
Calma. Misture tudo e respire. Agora, vamos enfrentar a revelação mais impressionante: Cristo não nasceu em 25 de dezembro.
Mitra, um deus persa que representava a Luz, a Benevolência e a Sabedoria, esse sim, era o aniversariante na data de 25 de dezembro, em Roma, pelo menos até o século II.
A data coincide com o início do solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério Norte. Daí em diante, o Sol fica mais tempo no céu até o final do verão e significa a certeza de boas colheitas no ano seguinte. Motivo para festas, com trocas de presentes.
Com o mesmo motivo, e no mesmo período, os gregos celebravam Dionísio, o deus do vinho, os egípcios festejavam o deus Osíris, e na China até hoje homenageiam a harmonia da Natureza, através dos símbolos yin-yang.
Os primeiros seguidores de Jesus guardavam apenas o martírio, a Sexta-feira Santa e a Ressurreição, a Páscoa. Diziam que não fazia sentido comemorar o nascimento de um santo ou mártir, já que ele somente se torna sagrado após a morte. E o apostolado de Jesus durou apenas cerca de três anos. Também concordo.
Ninguém fazia (nem faz até hoje) ideia da data do nascimento de Jesus. Somente em 221 d.C o historiador Sextus Julius Africanus afirmou, com o aval da Igreja, que Jesus havia nascido na mesma data do deus Mitra. O Novo Testamento não se refere ao assunto. Nenhum evangelista cita o nascimento de Jesus.
Segundo o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp, somente a partir do século IV, no ano 313 d.C, portanto, quando o Cristianismo virou religião oficial do Império Romano (pelo Imperador Constantino quando proclamou o Édito de Milão); a comemoração do solstício do inverno, o Festival do Sol Invicto, mudou de homenageado. Esqueceram o deus Mitra e convencionou-se que Jesus nasceu em 25 de dezembro.
Associado ao deus-Sol, Jesus assumiu a forma da Luz divina que traria a Salvação para a humanidade.
Uma troca cultural, telúrica (terrena), e bastante inteligente. Esta é a História, como ela é: uma farsa.
PS. Texto publicado, na edição impressa do Jornal de Hoje, em dezembro de 2013.

(*) Rinaldo Barros é professor – rb@opiniaopolitica.comp